Inscrições abertas para extensão em “Diversidade religiosa em sala de aula”, em São Paulo

O curso de extensão universitária “Diversidade religiosa em sala de aula” está com as inscrições abertas. Este curso é coordenado pelo Coletivo por uma Espiritualidade Libertária.

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O curso é voltado para professores e demais profissionais da educação básica e comunidade, mas aberto a interessados em geral, graduados e graduandos em qualquer área. Serão 5 módulos (20h) com 5 encontros presenciais (sábados das 8h00 às 12h00) mais leituras e atividades a distância.

O primeiro encontro presencial será no dia 20 de maio (sábado) a partir das 8h00, no Centro de Pós-graduação do Complexo Educacional FMU, localizado na Rua Vergueiro, 107, Liberdade (próximo ao metrô São Joaquim), aqui na cidade de São Paulo. Compareçam!

  • Módulo 1: Diversidade religiosa e direitos humanos
  • Módulo 2: Intolerância religiosa no Brasil e em sala de aula
  • Módulo 3: Elementos para promover e valorizar a diversidade religiosa
  • Módulo 4: Diversidade religiosa nos materiais didáticos e objetos de aprendizagem
  • Módulo 5: Diversidade religiosa no planejamento das aulas

As vagas são limitadas.

Inscrições:
http://portal.fmu.br
Tel.: 11 3132 3000

Informações (sobre esse e outros cursos): espiritualidadelibertaria@gmail.com

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O Coletivo por uma Espiritualidade Libertária anuncia o lançamento do primeiro número do informativo “Diálogos & Espiritualidade” (2017) que aborda a questão da intolerância religiosa. Essa publicação está no âmbito das atividades da Campanha Contra a Intolerância Religiosa e do projeto “Diversidade religiosa em sala de aula”. Para saber mais sobre a Campanha Contra a Intolerância Religiosa, leia o texto “É preciso dizer não à intolerância religiosa no Brasil” de Amauri Alves e Silas Fiorotti. E para saber sobre o projeto “Diversidade religiosa em sala de aula”, leia o texto “Por que falar de religião em sala de aula?” de Silas Fiorotti.

No dia 29 de abril, ocorreu o Diálogo sobre as perspectivas das teologias feministas

No dia 29 de abril, ocorreu o “Diálogo sobre as perspectivas das teologias feministas“, aqui na cidade de São Paulo. Este diálogo contou com a participação de Elaine Donda (teóloga e pesquisadora da Umesp) e de Mabel Garcia (teóloga e pastora batista) e a mediação de Angélica Tostes.

Nós, do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária, agradecemos a todas e todos que colaboraram e participaram desse encontro.

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(fotos de Elaine Donda e Angélica Tostes)

Lembramos que estão abertas as inscrições para o curso de extensão “Diversidade religiosa em sala de aula”, coordenado pelo Coletivo por uma Espiritualidade Libertária, que será ofertado na Pós-graduação da FMU, com aulas aos sábados pela manhã, na cidade de São Paulo. Para saber sobre o projeto “Diversidade religiosa em sala de aula”, leia o texto “Por que falar de religião em sala de aula?”.

Contato: espiritualidadelibertaria@gmail.com.

Diálogo sobre as perspectivas das teologias feministas (29/4/2017), em São Paulo

Nós do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária convidamos para:

Diálogo sobre as perspectivas das teologias feministas“, no dia 29/4 (sábado) a partir das 9h30, com a presença de: Elaine Donda (teóloga e pesquisadora da Umesp) e Mabel Garcia (teóloga e pastora batista), e mediado por Angélica Tostes (do Espiritualidade Libertária).

O encontro iniciará pontualmente às 9h30 no salão paroquial da Igreja Imaculada Conceição, na Avenida Brigadeiro Luis Antônio, 2071, São Paulo, SP (próximo ao metrô Brigadeiro).

A participação é gratuita. Pedimos apenas que confirmem a presença por e-mail (espiritualidadelibertaria@gmail.com) e colaborem com alguns quitutes ou frutas que serão partilhados durante o encontro.

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O Coletivo por uma Espiritualidade Libertária anuncia o lançamento do primeiro número do informativo “Diálogos & Espiritualidade” (2017) que aborda a questão da intolerância religiosa. Essa publicação está no âmbito das atividades da Campanha Contra a Intolerância Religiosa e do projeto “Diversidade religiosa em sala de aula”.

No dia 25 de março, ocorreu o Diálogo sobre mitos femininos na pajelança e nas religiões afro-brasileiras em São Paulo

No dia 25 de março, ocorreu o “Diálogo sobre mitos femininos na pajelança e nas religiões afro-brasileiras”, aqui na cidade de São Paulo. Este diálogo contou com a participação do William Figueiredo (filósofo e pesquisador da Umesp). Houve também o lançamento do informativo “Diálogos & Espiritualidade” que aborda a questão da intolerância religiosa.

Nós, do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária, agradecemos a todas e todos que colaboraram e participaram desse encontro.

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(Fotos de  Angélica Tostes.)

Lembramos que, no mês de abril, ocorrerá um diálogo sobre as perspectivas da teologia feminista com a presença de Elaine Donda (teóloga e pesquisadora da Umesp) e outras convidadas. Também no mês de abril, estarão abertas as inscrições para o curso de extensão “Diversidade religiosa em sala de aula” que será ofertado em maio, com aulas aos sábados pela manhã, na cidade de São Paulo. Em breve divulgaremos maiores informações.

Para saber sobre o projeto “Diversidade religiosa em sala de aula”, leia o texto “Por que falar de religião em sala de aula?”.

Contato: espiritualidadelibertaria@gmail.com.

Diálogo sobre mitos femininos na pajelança e nas religiões afro-brasileiras (25/3/2017), em São Paulo

Nós do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária convidamos para:

Diálogo sobre mitos femininos no xamanismo, na pajelança e nas religiões afro-brasileiras” no dia 25/3 (sábado) às 9h30.

Com a presença de: William Bezerra Figueiredo (pesquisador da Umesp) e mediado por Gabriela Veloso (do Espiritualidade Libertária).

Haverá também o lançamento do informativo “Diálogos & Espiritualidade”.

O encontro iniciará pontualmente às 9h30 no salão paroquial da Igreja Imaculada Conceição, na Avenida Brigadeiro Luis Antonio, 2071, São Paulo, SP (próximo ao metrô Brigadeiro).

A participação é gratuita. Pedimos apenas que confirmem a presença por e-mail (espiritualidadelibertaria@gmail.com) e contribuam com quitutes ou frutas para partilharmos durante o encontro.

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O Coletivo por uma Espiritualidade Libertária anuncia o lançamento do primeiro número do informativo “Diálogos & Espiritualidade” (2017) que aborda a questão da intolerância religiosa. Essa publicação está no âmbito das atividades da Campanha Contra a Intolerância Religiosa e do projeto “Diversidade religiosa em sala de aula”.

“Ser muçulmana é ter fé em Deus único, é ser livre apesar de acharem que eu sou oprimida o tempo todo, por todo mundo”, entrevista com Sarah Ghuraba

Entrevista com Sarah Ghuraba, concedida a Silas Fiorotti, membro do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária, em janeiro de 2017, dentro das atividades da Campanha Contra a Intolerância Religiosa (2017) e do projeto “Diversidade religiosa em sala de aula”. Esta entrevista foi publicada no primeiro número do informativo “Diálogos & Espiritualidade” (2017) que aborda a questão da intolerância religiosa.

Há quanto tempo você é muçulmana? O que é ser uma muçulmana para você?

Sou muçulmana há 5 anos. Ser muçulmana para mim é algo bem simples, é minha fé em Deus único, é ser livre apesar de acharem que eu sou oprimida o tempo todo, por todo mundo.

Você já sofreu algum tipo de preconceito por conta da sua fé?

Sim, várias vezes. [Em 2015, Sarah recebeu pedrada – leia relato abaixo.]

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Você que atua na área da educação aqui em São Paulo, como percebe a intolerância religiosa se manifestando na educação? Essa intolerância religiosa vem acompanhada com outros preconceitos?

Olha é assustador, são todos os tipos de preconceitos que encontramos na escola, seja no segmento religioso quanto na orientação sexual. O problema maior a meu ver é como os docentes lidam (ou na maioria dos casos não lidam) com a situação. Alguns fortificam a intolerância pelo viés tradicional, outros dão uma camuflada, mas no geral alimentam as brincadeiras que julgam “saudáveis”. Logo o preconceito que é enraizado, continua muito firme e muito forte dentro do ambiente escolar. Vejo poucos professores preocupados efetivamente com isso, a discrepância é desleal.

Mesmo sendo evangélico, sei que nós evangélicos temos muita responsabilidade pela intolerância religiosa contra adeptos do islamismo. Muitos evangélicos têm dito que há um mal na própria religião islâmica. Você pode passar alguma mensagem aos evangélicos que não conhecem as vertentes islâmicas e seus adeptos?

Aprendi com o Teatro Mágico: “Onde sobra intolerância, falta inteligência”. Todos que têm intolerância, seja com o Islam ou com religiões de matriz africana, certamente não estudaram muito sobre tal referência. Não se deixar levar por orientação das pessoas que julgam-se acima da lei de Deus já é um bom começo. Buscar sempre o conhecimento, questionar tudo que é possível, mas não com seus próprios líderes religiosos. É bom que questione as coisas com as pessoas que seguem a religião, só assim você poderá, além de obter mais conhecimento sobre novas culturas, terá também seu próprio corpo de análise. Ser um bom fiel de qualquer religião significa respeitar seu próximo.

Suponho que você possua amigos e familiares que também são evangélicos. Agora no sentido de quebrar estereótipos, você pode citar algum aspecto que você considera positivo relacionado aos evangélicos?

Minhas tias são evangélicas, e temos um relacionamento agradável, elas sabem limitar o que vão dizer quando estão próximas a mim, tal como eu me limito no que dizer a elas, para não gerar confusão. Não brigamos por conta de religião, quando divergimos de algo, buscamos dialogar. Então vejo por parte delas que há sim como conviver muito bem uma ou mais religiões, porque há o RESPEITO.

Agradecemos por essa entrevista.

Eu agradeço imensamente o espaço, agradeço por trabalharem de forma tão limpa e clara na militância contra o preconceito. Que Allah Swt abençoe todos vocês. Que 2017 seja um ano de muita luz para todos nós. Assalamu Alaikum (Que a Paz de Deus estejam com vocês). Com carinho, Sarah Ghuraba.

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Sarah Ghuraba é professora da educação básica. E-mail: jimvim@gmail.com.
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“A professora Sarah Ghubara, 27, recebeu uma pedrada a caminho de um posto de saúde na capital paulista, onde tinha consulta médica. ‘Quando passei por um terreno baldio, ouvi a voz de um homem me chamando de muçulmana maldita. Alhamdulillah [graças a Deus] a pedra pegou na minha perna. Pelo impacto, se tivesse pegado na cabeça, teria feito um estrago’.”
 (Anna Virginia Balloussier, Folha de São Paulo, 15/1/2015)

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O Coletivo por uma Espiritualidade Libertária (de São Paulo) aceita convites para palestras voltadas para jovens, estudantes, educadores e religiosos. Entre em contato conosco para levar alguma palestra para sua instituição, empresa, escola, igreja, grupo de jovens ou coletivo. Para saber mais sobre a Campanha Contra a Intolerância Religiosa, leia o texto “É preciso dizer não à intolerância religiosa no Brasil” de Amauri Alves e Silas Fiorotti. E para saber sobre o projeto “Diversidade religiosa em sala de aula”, leia o texto “Por que falar de religião em sala de aula?” de Silas Fiorotti.

Contato: espiritualidadelibertaria@gmail.com.

Teologia da violência (por Angelica Tostes)

Teologia é discurso. E discursos são eventos da linguagem. São “dis-cursos, isto é, um desvio do curso” (JOSGRILBERG, 2012, p.42). O estudo dos “desvios do curso” na teologia é mais que necessário, pois a linguagem religiosa tem um poder fortíssimo na sociedade. Um dos primeiros passos para esse estudo é repensar nossa hermenêutica bíblica e dar visibilidade as diversas vozes da Escritura Sagrada cristã.

As instituições religiosas cristãs, em sua lamentavelmente maioria, produzem um discurso violento. Discursos que não promovem a paz, mas que instigam a guerra. Um discurso de ódio contra tudo e todos aqueles que são “diferentes” da sua normalidade imposta. A religião oficial tem a constante tarefa de “evitar e apagar a polissemia religiosa representada, nesse caso, pelos movimentos não conformistas” (RIVERA, 2015, p. 289). Criticam as diversas teologias, como a teologia negra, teologia feminista, teologia da libertação, teologia gay, teologia das religiões.  “A existência de um único discurso, negando a polifonia, é, por definição violência; esta é justamente o silenciamento de outras interpretações/discursos a respeito da realidade.” (NETO, Adair)

A violência simbólica e discursiva é tão nociva quanto a violência física, pois é ela que alimenta até o ponto de se tornar algo físico. Basta lembrar cada caso de violência física  e crimes advindo desses discursos:

Os discursos que as mulheres são inferiores aos homens ; que a mulher é apenas a ajudadora, pobre coitada, que é o pescoço ; que o ministério delas é o lar, filhos e marido ; que a mulher deve tomar cuidado com as roupas e corpo ; que ela não deve ensinar na igreja e seminários ; que a mulher deve cuidar do marido, que se é traída é porque ela não cuidou direito ; que a pior coisa do mundo é ser mulher divorciada ; que não se pode nem pensar na palavra sexo e muito menos na palavra aborto: isso é  teologia da violência

Os discursos que os homossexuais precisam de cura ; que tem demônios no corpo ; que são aberrações ; que isso é anti-natural  ; que eles merecem o “inferno” ; as orações forçadas, as falsas profecias, as culpas impostas: isso é teologia da violência

Os discursos que os negros são amaldiçoados ;  os discursos que não colocam o racismo estrutural no púlpito ; a omissão do discurso sobre os jovens negros que são mortos dia após dia na periferia ; a invisibilização  da luta da mulher cristã negra, os discursos que demonizam a religião e cultura afro, “o discurso que impede negros cristãos de pensarem sua fé a partir dos referênciais de sua própria cultura e espiritualidade milenares” (ROCHA, Felipe): isso é teologia da violência

Os discursos que os pobres são pobres porque Deus quis assim ; que são pobres porque não trabalham direito ; que só não é pobre quem dá dizimo ; que Deus predestinou para ser pobre ou rico ; que a pobreza é sinônimo de pecado, pois a prosperidade é ter dinheiro ; os discursos que menosprezam o pobre, ridicularizam os programas do governo ou propostas políticas em direção aos pobres: isso é teologia da violência.

Os discursos que discriminam as diversas formas de crença ; que apenas o cristão é que tem o Deus verdadeiro ; que as imagens são ídolos ; que todas as outras religiões são enganações de Satanás e só o cristianismo é santo ; que tem que repreender os espíritos das outras religiões ; que não se deve aceitar comidas de outras religiões, pois pode estar consagrada a outros deuses: isso é teologia da violência.

Imagem-discurso de-sobre Deus

Teologia é discurso sobre Deus. Mas quem é esse Deus de que tanto se fala? Qual é a imagem dele? Nós somos a imagem e semelhança de Deus ou Deus é a nossa imagem e semelhança? É esse “Deus” que promove ódio e violência que existe? Para o filósofo Jack Caputo,

“Na religião, o amor de Deus está exposto habitualmente ao perigo de confundir-se com a profissão de alguém ou o ego de alguém, ou o gênero de alguém, ou a política de alguém, ou a ética de alguém, ou o esquema metafísico favorito de alguém, ao qual este se sacrifica de maneira sistemática. Então, ao invés de fazer sacrifícios pelo amor de Deus, a religião se inclina a fazer um sacrifício do amor de Deus” (Caputo, 2005: 121, tradução Jonathan Menezes).

Sempre projetamos nossas aspirações nesse Sagrado. E assim o discurso oficial da grande parte das igrejas massacra a diversidade por uma questão antropomórfica de Deus: homem, branco, velho, hétero, rico. E além da leitura bíblia feita com essa imagem de Deus, é necessário relembrar que o a Bíblia é um testemunho das comunidades de fé a respeito das experiências religiosas com o Sagrado, isto é, está sujeita a suspeita. A hermenêutica da suspeita visa questionar motivações da escrita, “uma vez que todo discurso envolve interesses em uma ordem de coisas cujas raízes não são dadas explicitamente. O texto tanto revela como esconde. O texto possui sempre uma dimensão ideológica, bem como toda interpretação […] As hermenêuticas da suspeita funcionam como procedimentos reveladores daquilo que se dissimula o texto” (JOSGRILBERG, 2012, p.42).

O processo de interpretação de texto é algo que deve ser levado em conta nas igrejas. O Reverendo Luiz Carlos Ramos disse uma vez que é necessário uma leitura honesta das Escrituras. O que seria essa leitura honesta? Uma leitura que leva em conta todos os aspectos da crítica literária, histórica, cultural, entre outros inúmeros fatores do texto. O pensador Paul Ricoeur dizia que “a análise do discurso religioso não deve começar com o nível da afirmação teológica” (2008, p.86) mas abranger todo o aspecto dos gêneros literários , dos níveis de discurso, para que sejam neutralizados para que aí sim se possa extrair algo de teológico neles (RICOEUR, 2008, p.85). É interessante que muitos daqueles que destilam ódio e intolerância pelas redes sociais já possuem essas ferramentas para a análise de texto, porém, as ferramentas não significam nada. O olhar é o que determina a imagem. O olhar é um ato de escolha e um ato político. Olhamos o que nos é conveniente, e por mais que tenhamos inúmeras ferramentas, escolhemos fechar os olhos para o que os textos dizem. Se escolhe dizer que a Bíblia é revelada e que por isso as palavras são imutáveis e devem ser levadas na literalidade. Entretanto, é necessário relembrar que na própria Escritura os discursos sobre a divindade são diversos e com diferentes significados que “a noção de revelação não poderá mais ser formulada em uma forma monótona e uniforme que pressupomos quando falamos da relevação bíblica” (RICOEUR, 2008, p. 87), e assim se chegará à conclusão que a revelação é polissêmica e polifônica.

Os místicos estavam corretos sobre as imagens de Deus: devem ser eliminadas. As imagens de Deus, na verdade, são imagens de si próprio. Por isso o Mestre Eckhart orava: “Deus, livrai-me de Ti”.Quem se apega as imagens que tem de Deus não está disposto a realmente experimentá-lo. Experimentá-lo como evento que transforma a existência, porém, sem realmente saber o porquê. Quem se apega as palavras sobre Deus não tem tempo para contemplá-lo no cotidiano da vida, nas coisas simples, nos pequenos milagres diários. Quem sabe além das imagens de Deus não devamos abandonar a palavra Deus também.

Deus: palavra polissêmica – cheia de sentidos, cheiros, sabores ; palavra polifônica – cheia de sons, melodias, silêncios. Porém, esse Deus “morre logo que se converte num acessório cultural ou num ideal humano” (VAHANIAN, 1968, p.195).  A teóloga Ivone Gebara escreve em seu artigo “Deus uma palavra escorregadia…” o seguinte parágrafo

“E se não usássemos a palavra DEUS? Se a deixássemos descansar para recuperar sua força e vitalidade? Se apagássemos ou colocássemos entre parêntesis, ao menos provisoriamente essa palavra dos dicionários e da linguagem cotidiana, sobretudo da política partidária? E, se não achássemos mais que as igrejas e suas autoridades públicas tivessem o privilégio maior e a verdade mais profunda em relação ao “conhecimento de Deus”? E se tentássemos entender o que uns e outros querem dizer quando empregam essa escorregadia palavra? Sim escorregadia palavra porque portadora de escorregadios significados. Escorregadia visto que parece ter um só significado, mas é multidão. Multidão de significados para os que a utilizam e para os que calam sobre ela. Escorregadia porque nos conduz a um terreno movediço que nos faz cair em contradições contínuas frente a frágil realidade que somos e que vivemos.” (GEBARA, 2016)

O discurso da violência prevalece quando tentamos definir Deus segundo nossa imagem e semelhança e utilizamos esse “poder metafísico-sobrenatural” para obter nossos próprios benefícios, sejam eles pessoais ou da comunidade de fé. Talvez a tarefa da teologia seja aprender a se despir da própria ideia de THEOS LOGIA. Quanto mais a teologia se fecha em si mesma, mais ela reproduz a cultura de exclusão e violência. Pode ser que ao invés das igrejas discursarem sobre Deus e sobre como as pessoas devem se relacionar com ele, elas devessem simplesmente deixar o curso do rio fluir naturalmente, sem dis(viar-o)curso.

Discurso-teologia da caridade e paz

Para ser possível abandonar um discurso teológico da violência o cristianismo deve se libertar do seu caráter fundamentalista e idólatra da Bíblia. Existem diversas leituras da Bíblia, mas em suma podem ser divididas em duas: as que promovem vida e comunhão e as que promovem morte e divisão. O filósofo Gianni Vattimo propõe a leitura da caridade, inspirada pelo teólogo medieval Gioacchino da Fiore. Para o filósofo “a única coisa que conta é a caridade; de fato, somente a caridade constituiu o limite e o critério da interpretação espiritual da Escritura” (VATTIMO, 2004, p. 66).

A leitura da caridade, ou espírito, é a leitura que permite as múltiplas vozes interpretativas. Uma leitura que promove libertação dos discursos de ódio, violência, opressão e intolerância. Não é possível falar hoje de teologia, cristianismo no singular, mas sim de teologias e cristianismos. E a pluralidade da leitura permite a abertura do Jesus das amarras da fria teologia fundamentalista.

Harvey Cox, teólogo estadunidense, dizia que a Igreja deve ser a vanguarda de Deus, porém só conseguirá tal proeza se der continuidade com a missão histórica de Jesus. E coloca uma função quádrupla da Igreja:

  1. Kerigma: “A Igreja há de proclamar a liberdade e a adultez do homem que recebeu de Deus a responsabilidade do mundo”.
  2. Diakonia: “A Igreja há de conceber a sua missão como serviço ao homem no tratamento de todas as suas feridas e fraturas individuais e coletivas”
  3. Koinonia: “A Igreja há de ajudar a criar a comunidade entre os homens, colaborando com todos os movimentos que se esforçam por caminhar para uma meta nova e melhor da história.”
  4. Exorcismo: “A Igreja há de se assumir a tarefa de tirar da humanidade atual os maus “demônios” que a possuem no campo do trabalho e da cultura.”(COLOMER, 1972, p. 149)

Atualmente a leitura predominante das igrejas é a leitura do vale de ossos secos. A sequidão espiritual, mística e poética do cristianismo leva à uma religião idólatra, mesquinha, consumista, violenta e fundamentalista. A superação do discurso e teologia da violência viria se houvesse a compreensão de que os ensinamentos do cristianismo não estão focados na busca no deus-metafísico, mas sim na busca pelo seu próximo, no deus-que-se-fez-próximo. Jesus se fez ossos, nervos, carne, pele. A igreja, da mesma forma, deve se tornar ossos, nervos, carne e pele. Quando a Igreja cumpre suas funções para com a sociedade na luta por justiça, igualdade, tolerância, paz, ela se torna a Igreja de Jesus.

“A unidade da igreja de Jesus acontece e perpassa a busca pela unidade da totalidade social (ossos, nervos, carne, pele) organicamente a serviço da vida, disposta a reinventar novas formas de poder e novas formas de ser igreja.” (CARDOSO)

Bibliografia

CAPUTO, J. D. Truth: philosophy in transit (eBook). London: Penguin, 2013

COLOMER, S. J., Eusebi, A morte de Deus, Tavares Martins, Porto, 1972.

GEBARA, Ivone. Deus uma palavra escorregadia… Disponível em < http://www.ihu.unisinos.br/noticias/555932-deus-uma-palavra-escorregadia > Acesso em <04 de jan de 2017 >

JOSGRILBERG, Rui de Souza. Hermenêutica fenomenológica e a tematização do sagrado. In NOGUEIRA, Paulo. Linguagens da religião – desafios, métodos e conceitos centrais. São Paulo: Paulinas, 2012.

MENEZES, Jonathan. Da tolerância à caridade: sobre religião, laicidade e pluralismo na atualidade. Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol. 28, no 208 55, p. 189-209, janeiro-junho 2015. Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/eh/v28n55/0103-2186-eh-28-55-0189.pdf&gt; Acesso em < 04 de jan de 2017 >

PEREIRA, Nancy Cardoso. Superar a Violência! Por uma Cultura de Paz! Missão ecumênica, inter-religiosa e inter-cultural. Disponível em < https://www.academia.edu/5696960/Superar_a_Viol%C3%AAncia_Por_uma_Cultura_de_Paz_ > Acesso em < 05 de jan de 2017 >

RICOEUR, Paul. Ensaios sobre a interpretação bíblica. São Paulo: Fonte editorial, 2008

RIVERA, Dario. Sentidos das linguagens religiosas: perspectivas sociológicas. In NOGUEIRA, Paulo. Religião e linguagem: abordagens teóricas interdisciplinares. São Paulo: Paulus, 2015

VAHANIAN, Gabriel. La muerte di Dios: La cultura de nuestra época poscristiana. Barcelona: 1968.

VATTIMO, Gianni. Depois da cristandade: por um cristianismo não religioso. Rio de Janeiro: Record, 2004.

(E diálogos com Felipe Rocha e Adair Neto acerca do tema)

 

  • Angelica Tostes é teóloga, mestranda em Ciências da Religião, membro do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária e REJU, envolvida em questões de diálogo inter-religioso e teologia feminista.
    E-mail: angelicatostes@gmail.com.
  • Fonte: https://angeliquisses.wordpress.com/2017/01/06/a-teologia-da-violencia/