É preciso combater a intolerância religiosa na educação básica

“Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa (21 de janeiro): É preciso combater a intolerância religiosa na educação básica” — por Silas Fiorotti

Alguns levantamentos têm apontado para o aumento dos casos de intolerância religiosa no Brasil. A própria instituição do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa (21 de janeiro), em 2007, faz menção à Mãe Gilda que faleceu de um infarto fulminante em decorrência de ataques de intolerância religiosa. Diversos antropólogos e pesquisadores das religiões chamam a atenção para a relação direta entre a intolerância religiosa e o racismo, e também associam este aumento da intolerância religiosa ao crescimento do pentecostalismo.

A relação entre a intolerância religiosa e o racismo é constatada pelo fato das religiões afro-brasileiras e seus adeptos serem aqueles que mais sofrem ataques discriminatórios. As religiões afro-brasileiras (ou religiões brasileiras de matrizes africanas) carregam a herança africana em diversos aspectos; por exemplo, mantiveram o culto às divindades da natureza e aos ancestrais através da tradição oral, algo que é considerado por muitas pessoas como “primitivo”, atrasado, sujo, repulsivo, “coisa de preto”. As religiões afro-brasileiras historicamente também têm sofrido com desqualificações e com criminalizações por parte do poder público, sendo continuamente acusadas de charlatanismo e curandeirismo. Nos últimos anos, o racismo volta-se contra os rituais dos candomblés que são considerados repulsivos e cruéis por conta dos sacrifícios de animais, há inclusive novas tentativas de criminalização destes rituais.

O crescimento do pentecostalismo no Brasil continua impactando negativamente as religiões afro-brasileiras. Grande parte das igrejas evangélicas pentecostais dá lugar central à guerra espiritual e isto leva ao acirramento de determinadas práticas. Nesta guerra espiritual, algumas práticas de “evangelização” incluem convocações para os crentes evangélicos cometerem atos que podem ser caracterizados como intolerância religiosa e os principais alvos têm sido as religiões afro-brasileiras, seus templos, suas divindades, seus símbolos, seus adeptos, suas cerimônias públicas e os símbolos da herança africana. Diversos destes atos de intolerância dos evangélicos são decorrentes de alianças entre igrejas e políticos evangélicos ou mesmo, por mais extraordinário que possa parecer, entre igrejas e “traficantes evangélicos”.

Os levantamentos também apontam para o aumento dos casos de intolerância religiosa no âmbito da educação básica. O balanço das denúncias de intolerância religiosa do Disque 100 (<http://www.disque100.gov.br>), telefone da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, que apresenta dados das denúncias recebidas entre 2011 e o primeiro semestre de 2018, apontou que algumas denúncias são relativas a casos de intolerância religiosa ocorridos nas escolas e com atos cometidos por professores e diretores de escolas. Conforme estes dados, pode-se supor que o aumento é tímido e ainda são poucos casos de intolerância religiosa na educação básica. No entanto, não há levantamentos mais detalhados sobre os casos específicos de intolerância religiosa ocorridos no âmbito da educação básica.

Engana-se quem pensa que são somente professores e diretores de escolas, principalmente evangélicos, que cometem atos de intolerância religiosa contra estudantes adeptos das religiões afro-brasileiras, como sugere o balanço do Disque 100. Diversas reportagens e algumas pesquisas acadêmicas têm mostrado que ocorrem também atos de intolerância religiosa cometidos por estudantes evangélicos contra outros estudantes adeptos das religiões afro-brasileiras; atos de intolerância religiosa praticados contra professores e contra as iniciativas de abordar a história e a cultura africana e afro-brasileira (conforme as leis 10.639 e 11.645); atos de intolerância religiosa contra os símbolos da herança africana e das religiões afro-brasileiras presentes nas escolas; atos de intolerância religiosa praticados por líderes evangélicos e parlamentares evangélicos contra os símbolos da herança africana e das religiões afro-brasileiras presentes nas escolas, nos materiais didáticos e nas atividades escolares; e casos de intolerância religiosa nas próprias representações das religiões afro-brasileiras presentes em alguns livros didáticos elaborados por editoras católicas e evangélicas. As pesquisas e os levantamentos precisam ser mais detalhados e precisam levar em conta as diversas dimensões dessa intolerância religiosa que manifesta-se na educação básica.

Por mais que se possa argumentar que a perseguição às religiões afro-brasileiras nas escolas tem uma motivação estritamente laicista, é possível identificar claramente a sua motivação religiosa. As pessoas evangélicas, que são aquelas que mais cometem os atos de intolerância religiosa, evocam um Deus belicoso do pentecostalismo que propaga a guerra espiritual contra Satanás e seus demônios, porque “ninguém pode mais do que Deus”. Com isso, as religiões afro-brasileiras, suas divindades e seus adeptos são amplamente demonizados e combatidos. Um estudante que é adepto do candomblé pode ser considerado “filho do capeta”, um livro que aborda a mitologia das divindades das religiões afro-brasileiras pode ser considerado “livro do demônio”, um trabalho proposto sobre a cultura afro-brasileira a partir da literatura brasileira pode ser considerado algo “contra os princípios bíblicos”, e assim por diante.

Para enfrentar essa intolerância que possui motivação religiosa, não basta propor alguma medida supostamente laicista como a exclusão de qualquer abordagem das religiões da educação básica. Isto por si só não garante a efetivação de qualquer laicidade nas escolas ou nos processos de ensino-aprendizagem, nem mesmo garante a convivência pacífica entre estudantes e profissionais da educação adeptos de diferentes crenças. É preciso garantir que pessoas adeptas de diferentes crenças ou descrenças possam assumir publicamente suas identidades religiosas ou arreligiosas e possam conviver pacificamente nas escolas. Nenhum estudante pode ser levado a negar sua identidade religiosa por conta de atos intolerantes, de estigmas e de preconceitos, inclusive de cunho racista. Neste sentido, não há como combater o racismo e a intolerância religiosa nas escolas sem abordar, com muito respeito e admiração, a história do negro no Brasil, a cultura afro-brasileira e as religiões afro-brasileiras.

Como evangélico, admito que é muito triste ver diversos evangélicos, inclusive líderes de igrejas e parlamentares, que simplesmente não têm qualquer respeito pelas religiões afro-brasileiras, pelos seus símbolos e pelos seus adeptos. É muito triste ver líderes evangélicos organizando movimentos contra livros didáticos e paradidáticos que abordam as religiões afro-brasileiras. É muito triste ver diversos evangélicos evocando um Deus belicoso nas escolas e demonizando tudo que é relacionado às religiões afro-brasileiras. Neste dia 21 de janeiro, todos que atuam na educação, principalmente nós evangélicos, devemos nos comprometer efetivamente com o combate à intolerância religiosa e com o combate ao racismo.

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* Silas Fiorotti é evangélico, cientista social, doutor em Antropologia Social (USP) e coordenador do projeto Diversidade Religiosa em Sala de Aula do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária. E-mail: <silas.fiorotti@gmail.com>.

** Este artigo foi publicado também no Observatório da Imprensa, São Paulo, em 22/1/2019 na edição 1021.

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Coletivo por uma Espiritualidade Libertária lançou o informativo Diálogos & Espiritualidade que aborda a questão da intolerância religiosa. Esta publicação está no âmbito das atividades da Campanha Contra a Intolerância Religiosa e do projeto Diversidade Religiosa em Sala de Aula. Para saber mais sobre a Campanha Contra a Intolerância Religiosa, leia o texto “É preciso dizer não à intolerância religiosa no Brasil” de Amauri Alves e Silas Fiorotti. E para saber sobre o projeto Diversidade Religiosa em Sala de Aula, leia o texto “Por que falar de religião em sala de aula?” de Silas Fiorotti.

Informações (sobre cursos, palestras e oficinas) e contatos: <espiritualidadelibertaria@gmail.com>.

“Ser de candomblé é assumir o risco de ser discriminado o tempo todo”, entrevista com Patrício Carneiro Araújo

Entrevista com Patrício Carneiro Araújo (“Odé Nisojí n’Egbé Irê-Ô”), concedida a Silas Fiorotti, membro do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária, no dia 31 de janeiro de 2017, dentro das atividades da Campanha Contra a Intolerância Religiosa (2017) e do projeto “Diversidade religiosa em sala de aula”.

Há quanto tempo você é candomblecista? O que é ser um candomblecista para você?

Conheci o candomblé no ano 2000, virada de século. Porém, meus primeiros contatos mais profundos com o candomblé se deram, em 2001, em João Pessoa, na Paraíba. Lá conheci o mundo dos terreiros, das nações de candomblé e dos orixás. Foi amor à primeira vista. No primeiro contato que tive com um terreiro já percebi que ali era meu lugar no mundo. Naquele mesmo ano, estive pela primeira vez diante do oráculo sagrado (jogo de búzios). No mesmo dia que o Pai Buiú de Oyá Onira jogou pra mim, fui a uma festa de Oxum (Ipeté) na casa da Mãe Chaguinha de Oxósse onde, pela primeira vez tive a honra de sentir no meu corpo a energia do meu orixá (Odé). Foi ali que comecei a entender o que é ser de candomblé. Em 2003, vim viver em São Paulo, onde, em 2007, me iniciei como filho de Odé Irinlê (Oxósse), na nação Ketu. Este ano (2017) completo, com muita honra e gratidão, 10 anos de iniciado. Sou filho do Pai Daniel Oguntobi, babalorixá n’Egbé Ire-ô, Diadema, São Paulo. Tenho então 17 anos de candomblé e 10 anos de iniciado.

Para mim, ser candomblecista é ter a consciência de que o ser humano realmente é um ser para a transcendência. É saber que a pessoa não está sozinha no mundo e que cada partícula da natureza, desde as folhas de uma planta até a poeira cósmica, compõem uma mesma realidade sagrada e sacralizante. Ser candomblecista é saber que o ser humano é imortal através da memória do seu povo e do seu grupo. Ser de candomblé é perceber-se como parte da divindade que dá vida e que mantém a vida de tudo que é animado e inanimado. Mas ser candomblecista também é ter consciência de que será vítima do racismo, discriminação e rejeição por parte da sociedade na qual vivemos. Ser de candomblé é perceber-se como parte de um povo mal compreendido que luta todo dia para provar ao mundo que não cultua o demônio e não faz mal às pessoas. Então, ser candomblecista é mais do que ser um religioso ou seguidor de uma religião: é assumir uma postura política diante do mundo. Para cultuar seu orixá, nkisi, vodum, etc., é preciso assumir uma posição política no sentido de defender aquilo que há de mais precioso para qualquer pessoa: sua consciência de sagrado.

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Você já sofreu algum tipo de preconceito por conta da sua fé?

Várias vezes. Aqui faço questão de relembrar meus primeiros contatos com o preconceito, discriminação e racismo contra o mundo dos terreiros. Lembro-me que na minha infância, no povoado de Palmeira, Município de Imaculada, Paraíba, na década de 1980, a única religião que conhecíamos era o catolicismo. A Igreja praticamente mandava em tudo e em todos. Naquela época, duas umbandistas daquele povoado, depois de viverem no sudeste voltaram pra lá levando a umbanda. Lembro-me bem da intolerância que tiveram que enfrentar. Para manter a memória, faço questão de lembrar o nome de uma delas: Dona Maria Balá. Esta senhora sempre teve que morar em um sítio longe do povoado (cujo nome, Crioulos, me leva a pensar que ali um dia pode ter existido um quilombo). E sempre que vinha ao povoado, para as feiras ou outros compromissos, era evitada por grande parte das pessoas. Muita gente tinha medo dela e a evitava. Era vista como uma pessoa perigosa só pelo fato de ser umbandista. Tempos depois teve que ir morar em outra cidade. A pressão era muito grande. A outra umbandista nem lembro o nome. E isso é sintomático. Lembro que era parente de uma professora do lugar, Iraci. Mas, essa umbandista logo teve que se mudar também. O preconceito, racismo e intolerância religiosa a impediram de permanecer morando lá.

No meu caso, já vivi diversas situações de preconceito e intolerância por motivação religiosa. Inclusive na minha família. Lembro-me que minha mãe biológica, que não entende nada de candomblé e acha que é coisa do demônio, uma vez ameaçou de me abandonar, caso eu me iniciasse no candomblé. Noutra ocasião, uma irmã biológica, a quem amo muito e que sempre me acolheu na sua casa, tempos depois que eu me iniciei precisei passar uma temporada morando na casa dela. Mesmo me acolhendo de pronto, discretamente me sugeriu que, caso eu fosse realmente morar lá, evitasse levar as coisas de orixá: “Não por nós, mas, por causa dos vizinhos”, se justificou. De outra vez, andando  de roupa branca (preceito recomendado aos iniciados nos dias de sexta-feira ou em períodos de ritualizações) pelas ruas do meu bairro, ao passar diante de um posto de combustíveis ouvi um frentista esconjurar o demônio atrás de mim. Acho que não preciso dizer que, naquela ocasião o demônio era eu. Em outra ocasião, por estar vestido de branco, usando torço (indumentária religiosa utilizada para cobrir a cabeça sacralizada) e fios de contas (colares sagrados que identificam os orixás) ao entrar em um ônibus e sentar numa poltrona do lado de uma senhora, esta se levantou e preferiu seguir viagem em pé, longe de mim. Situações como essas são comuns no cotidiano de pessoas ligadas ao candomblé e às outras religiões afro-brasileiras. Desafio um frequentador de terreiros que não tenha uma coleção de casos semelhantes. Por isso falo que ser de candomblé é assumir uma postura política diante do racismo, preconceito e discriminação. Ser de candomblé é assumir o risco de ser discriminado o tempo todo, inclusive por seus familiares que não são desse meio.

“Ser de candomblé é assumir uma postura política diante do racismo, preconceito e discriminação. Ser de candomblé é assumir o risco de ser discriminado o tempo todo, inclusive por seus familiares que não são desse meio.” (Patrício Carneiro Araújo)

Você fez uma pesquisa sobre a intolerância religiosa nas escolas. Como a intolerância religiosa se manifesta na educação básica? Essa intolerância religiosa vem acompanhada com outros preconceitos?

Na educação básica a intolerância religiosa se manifesta de muitas formas. De forma institucional, quando a escola elabora currículos intolerantes e racistas que só privilegiam os conteúdos ligados às culturas hegemônicas e aos grupos que se mantêm há séculos no poder. Quando professores e gestores colocam suas crenças pessoais e idiossincrasias à frente das suas ações profissionais, promovendo quem crê como eles e discriminando, ou mesmo demonizando, quem crê de outra forma. Quando os materiais didáticos privilegiam uma cultura religiosa hegemônica e silencia sobre as religiões dos grupos historicamente discriminados. Quando a formação dos professores reproduz preconceitos, discriminações, estereótipos e erros acerca das religiões minoritárias. Quando as Secretarias de Educação e Diretorias de Ensino se transformam em púlpito a serviço de religiosos fundamentalistas que ocupam cargos e funções administrativas, etc. No plano das relações mais diretas e imediatas, a intolerância religiosa também se manifesta na educação básica toda vez que uma criança é xingada por ser de terreiro; sempre que amizades se desfazem quando um dos amigos fica sabendo que seu colega, com quem conviveu harmonicamente durante anos, é de terreiro; quando, durantes as aulas e atividades, professores fundamentalistas reafirmam, diante de seus alunos, que macumba é coisa do diabo e que quem é de candomblé não vai pro céu e não se salvará; sempre que símbolos de religiões minoritárias são vilipendiados, rejeitados, proibidos etc., enquanto os símbolos das religiões majoritárias são acolhidos, promovidos, exaltados e impostos. Por exemplo, toda vez que um crucifixo é afixado à parede da escola, enquanto o fio de contas no pescoço da criança de candomblé é desqualificado, a intolerância religiosa está acontecendo. Em todas essas situações, e em muitas outras, a escola está reforçando o racismo e a intolerância. E, por isso mesmo, está traindo sua verdadeira natureza e função. Uma escola racista e intolerante é uma escola traidora.

“Toda vez que um crucifixo é afixado à parede da escola, enquanto o fio de contas no pescoço da criança de candomblé é desqualificado, a intolerância religiosa está acontecendo.” (Patrício Carneiro Araújo)

Nesse sentido, a intolerância religiosa é um tipo de violência que sempre vem acompanhada de outras: machismo, homofobia, racismo, agressão, desrespeito, etc. Afinal, na maioria dos casos, os agentes da intolerância religiosa são pessoas fortemente apegadas a suas concepções religiosas fundamentalistas. Contudo, nunca se pode perder de vista que a intolerância religiosa é uma forma de racismo. Racismo e intolerância religiosa são irmãos siameses. E por isso mesmo devem ser consideradas como um crime contra a humanidade. Intolerância religiosa não é brincadeira e nem mal entendido: é crime. E como crime deve ser denunciada, combatida e punida.

Mesmo sendo evangélico, sei que nós evangélicos temos muita responsabilidade pela intolerância religiosa contra adeptos das religiões afro-brasileiras. Você pode passar alguma mensagem aos evangélicos que não conhecem as religiões afro-brasileiras e seus adeptos?

Se eu tivesse a oportunidade de dar um conselho aos evangélicos fundamentalistas e intolerantes eu lhes aconselharia ir ler os evangelhos. Lhes recomendaria reler o Sermão da Montanha. Creio que os setores evangélicos fundamentalistas (que infelizmente não são poucos) não entenderam nada da mensagem evangélica. Diz-se que, uma vez indagado sobre por que não se convertia ao cristianismo, Gandhi afirmou que seu problema não era o cristianismo e sim os cristãos. Não se tem conhecimento de que Jesus defendesse a violência e a intolerância. Salvo engano, as únicas pessoas que despertaram a raiva de Jesus foram os fariseus, a quem ele chamou de “sepulcros caiados”. Sendo assim, aos evangélicos intolerantes e violentos eu aconselharia fazerem um exame de consciência sincero, a fim de investigarem até que ponto não estão sendo os sepulcros caiados de quem o Mestre de Nazaré falou.

Há quem diga que a intolerância é filha da ignorância e que só existe entre aqueles que não conhecem as outras religiões. Discordo disso. Há muita gente que mesmo conhecendo discrimina. Conhecer não é suficiente para respeitar. Para que se respeite é preciso ser honesto. Sendo assim, aos evangélicos intolerantes eu também recomendaria uma boa dose de honestidade. O evangélico honesto não discrimina. Não é intolerante. Não reproduz discurso de ódio. O evangélico honesto até prega o Evangelho para o membro de outra religião, mas nunca o agride. Sempre o respeita. Nem todo evangélico é intolerante. Então, podemos afirmar que é possível conviver com o outro sem agressão e respeitando-o. Qual o mal em falar da sua religião para membros de outras religiões? Nenhum. O problema começa quando a desonestidade passa à frente do sentimento de fé verdadeira. Aí o discurso de ódio assume o lugar da sinceridade de fé. Então não resta outra opção: os evangélicos têm que voltar a ler os evangelhos e tentar compreender sua mensagem. Quando a compreenderem de fato, verão que lá não há espaço para a intolerância, o ódio e a violência.

Outra recomendação aos evangélicos que lerem essas simples palavras é que procurem conhecer melhor as religiões afro-brasileiras. Àqueles que assim o desejarem convido a visitar um terreiro. Se aceitarem meu convite verão que essas religiões não adoram o diabo e não fazem mal às pessoas. Verão também como o povo de terreiro é feliz e jamais desrespeita o sagrado do outro. Da mesma forma, ao visitar um terreiro verão os valores cultivados pelo povo de santo e como viver é leve quando um se preocupa e cuida do outro como se fosse parte da divindade cultuada. Verão também como a natureza é reverenciada como parte da criação de Olorum (Deus). E, por fim, verão que o sentido da vida está no amor e não no ódio.

Suponho que você possua amigos e familiares que também são evangélicos. Agora no sentido de quebrar estereótipos, você pode citar algum aspecto que você considera positivo relacionado aos evangélicos?

Sim, com certeza tenho muitos amigos evangélicos. E também tenho muitos membros da minha família que são evangélicos. Tenho irmão que é diácono da Assembleia de Deus. Tenho um profundo respeito por eles e, da mesma forma, sempre fui muito respeitado. Naturalmente há aqueles que em vez do diálogo preferem o silêncio, quando o assunto é religião. Quando isso acontece respeito o silêncio deles e nos comunicamos através do respeito ao silêncio um do outro. Mas, no geral, todos me respeitam como candomblecista. E alguns até aproveitam para tirar dúvidas e conhecerem melhor a forma de crer e viver do povo de terreiro. Dessa forma, entre os muitos aspectos positivos que percebo nesses evangélicos, com os quais convivo, destaco o esforço em respeitar o outro, o profundo senso de reverência ao sagrado e às sagradas escrituras, o cuidado com a família, a valorização do trabalho, o zelo pela sacralidade da vida, a solidariedade e o desejo de fazer as coisas certas. Todos esses valores, e muitos outros, percebo nos evangélicos com os quais convivo. Da mesma forma, esses mesmos valores também podem ser percebidos entre o povo de terreiro. Então, se temos tanto em comum, por que não nos respeitarmos?

“Entre os muitos aspectos positivos que percebo nesses evangélicos, com os quais convivo, destaco o esforço em respeitar o outro, o profundo senso de reverência ao sagrado e às sagradas escrituras, o cuidado com a família, a valorização do trabalho, o zelo pela sacralidade da vida, a solidariedade e o desejo de fazer as coisas certas.” (Patrício Carneiro Araújo)

Agradecemos por essa entrevista.

Agradeço o convite para essa conversa e novamente reafirmo que o remédio contra o ódio é o amor. E, se uma religião não ensina a amar não faz sentido existir. Mas, esse amor de que falo não é o amor egoísta e narcísico que só ama o semelhante. Falo do amor que Jesus ensinou e que Oxalá ensina: o amor incondicional. Afinal, como o próprio Jesus falou: “Com efeito, se amais aos que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem também os publicanos a mesma coisa? E se saudais apenas os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem também os gentios a mesma coisa? Portanto, deveis ser perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mateus 5, 46-48).

Axé!

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Patrício Carneiro Araújo (“Odé Nisojí n’Egbé Irê-Ô”) é doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. E-mail: patricio.carneiroa@gmail.com.

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O Coletivo por uma Espiritualidade Libertária (de São Paulo) aceita convites para palestras voltadas para jovens, estudantes, educadores e religiosos. Entre em contato conosco para levar alguma palestra para sua instituição, empresa, escola, igreja, grupo de jovens ou coletivo. Para saber mais sobre a Campanha Contra a Intolerância Religiosa, leia o texto “É preciso dizer não à intolerância religiosa no Brasil” de Amauri Alves e Silas Fiorotti. E para saber sobre o projeto “Diversidade religiosa em sala de aula”, leia o texto “Por que falar de religião em sala de aula?” de Silas Fiorotti.

Contato: espiritualidadelibertaria@gmail.com.

Por que falar de religião em sala de aula? (por Silas Fiorotti)

Por que falar de religião em sala de aula?

Com as discussões sobre o ensino religioso, muita gente defendeu a retirada total da religião das escolas em nome da laicidade. É claro que as soluções dadas ao ensino religioso que, por sua vez, já foi instituído de forma problemática, não foram boas. Mas o ponto que eu quero destacar aqui é que a exclusão de qualquer abordagem das religiões por si só não garante a laicidade de qualquer escola ou do processo de ensino-aprendizagem.

Muita gente ainda pensa que o surgimento da laicidade foi fruto de uma demanda estritamente política ou jurídica, sem a atuação ou interferência de religiosos. Isso não é verdade. O avanço da laicidade em diversos países também é fruto da luta das minorias religiosas por reconhecimento, muitas vezes contra os interesses das religiões ou instituições religiosas estatais. Nesse sentido, a laicidade também é observada pela garantia de existência, garantia de visibilidade e respeito às minorias religiosas.

Pensando ainda que a laicidade é observada quando as minorias religiosas são respeitadas, podemos dizer que um ensino religioso que invariavelmente privilegia somente os católicos e os evangélicos, religiosos que possuem grande visibilidade na sociedade brasileira, dificilmente contribuirá no sentido de combater a intolerância religiosa e promover o respeito às minorias religiosas (principalmente os candomblecistas e os umbandistas, entre outros grupos).

No Brasil a intolerância religiosa está diretamente ligada ao racismo. Não tenho a intenção de discorrer sobre isso aqui, mas muitos negros ainda sofrem com o estigma e acabam negando sua identidade étnico-racial. Isso vem sendo denunciado e combatido, o que tem levado ao desenvolvimento de uma cultura negra e à afirmação dessa identidade por parte de muitos jovens. A escola tem esse papel de garantir que muitos jovens não acabem negando suas identidades religiosas por conta de estigmas e preconceitos, inclusive de cunho racista.

Aqui em São Paulo, o Coletivo por uma Espiritualidade Libertária, iniciou o projeto de extensão “Diversidade religiosa em sala de aula”. Você, professor ou profissional da educação, venha dialogar conosco. Precisamos nos comprometer com a valorização da diversidade e o combate à intolerância religiosa.

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Silas Fiorotti é cientista social, doutorando em Antropologia Social, e coordenador do projeto Diversidade Religiosa em Sala de Aula do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária. E-mail: <silas.fiorotti@gmail.com>.

É preciso dizer não à intolerância religiosa no Brasil (por Amauri Alves e Silas Fiorotti) – 27/1/2014

Vivemos no Brasil, considerado por muitos um país com liberdade religiosa consolidada em que diferentes grupos religiosos convivem pacificamente. No entanto, as coisas não são bem assim.

A história do Brasil nos mostra que praticantes de religiosidades de origem africana e afro-brasileira foram perseguidos nas visitações ao território brasileiro do Tribunal da Santa Inquisição (séculos XVII e XVIII). Na Constituição do Império, de 1824, o catolicismo é instituído como religião oficial e os templos não-católicos são proibidos, outras religiões ficam restritas aos espaços domésticos ou sem aparência de templo. Somente em 1891, com a Constituição Republicana, são instituídas a separação entre Estado e Igreja e a liberdade de culto. Contudo, tanto no Código Penal de 1890 como no de 1940, são mantidos os delitos de charlatanismo e curandeirismo pelos quais praticantes das religiões afro-brasileiras eram acusados.

Hoje, em 2014, ainda presenciamos tentativas de desqualificação da cultura afro-brasileira e das religiões afro-brasileiras. Há uma resistência em colocar em prática a lei 10.639 de 2003, que torna obrigatório o ensino da história da África e da cultura afro-brasileira nas escolas. E mesmo quando esta lei é colocada em prática, as religiões afro-brasileiras raramente são mencionadas por conta da oposição de alguns grupos religiosos, especialmente dos evangélicos. Alguns estudantes evangélicos recusaram-se a ler até mesmo obras clássicas da literatura brasileira, como Macunaíma de Mário de Andrade, por conta da religião. Além da baixa qualidade do nosso ensino básico, estes acontecimentos são decorrentes de uma cultura de guerra religiosa.

Constata-se, nas últimas décadas, um acirramento dos ataques de grupos evangélicos contra as religiões afro-brasileiras e seus adeptos (ver livro Intolerância religiosa: impactos do neopentecostalismo no campo religioso afro-brasileiro organizado por Vagner Gonçalves da Silva e publicado pela Editora da USP em 2007). Poucos ataques são efetivamente combatidos e denunciados como casos de intolerância religiosa. Estes ataques são incentivados e feitos no âmbito dos cultos, na literatura de guerra ou batalha espiritual e outros meios de divulgação. Foram noticiados alguns casos de agressões físicas contra adeptos das religiões afro-brasileiras; ataques às cerimônias religiosas afro-brasileiras em locais públicos e aos símbolos dessas religiões; e ataques aos símbolos da herança africana no Brasil.

Mãe Gilda (Gildásia dos Santos e Santos), do Axé Abassá de Ogum, em Itapuã, é um símbolo da luta contra a intolerância religiosa. Em 2000, ela faleceu de um infarto fulminante em consequência dos ataques sofridos por grupos evangélicos. Além de ter sua imagem usada indevidamente por uma igreja, teve seu terreiro invadido por um grupo de evangélicos dispostos a “exorcizá-la”. Este caso levou a Câmara Municipal de Salvador a transformar a data de seu falecimento (21/1/2000) em Dia Municipal de Combate à Intolerância Religiosa, em 2004. Posteriormente, em 2007, o mesmo dia tornou-se também o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.

Mas o que o cidadão comum pode fazer diante de tais demonstrações de intolerância? Assim como em outros casos de violência e intolerância, o ideal é não se calar. É importante que os casos de intolerância religiosa sejam denunciados. O Disque 100, número da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos, pode ser usado para denunciar casos de intolerância religiosa. Nenhum cidadão deve ser constrangido por causa de sua crença ou ausência dela. Nenhum cidadão deve sofrer qualquer tipo de ameaça ou perseguição ao abandonar uma religião ou crença. Por outro lado, nenhum cidadão tem o direito de vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso. Os religiosos e não-religiosos devem ser respeitados em suas crenças ou descrenças. Os templos e outros locais de culto devem ser respeitados. Os símbolos religiosos em locais públicos devem ser respeitados. As cerimônias religiosas e festas religiosas em locais públicos devem ser respeitadas. Denunciem qualquer tipo de intolerância religiosa.

Destacamos as ações de diversos grupos e organizações por todo o Brasil contra a intolerância religiosa: o Movimento Contra a Intolerância Religiosa da Bahia, a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR) do Rio de Janeiro, a Koinonia – Presença Ecumênica e Serviço, o Instituto da Tradição e Cultura Afro-brasileira (INTECAB), a Comissão de Assuntos Religiosos Afrodescendentes de São Paulo, o Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo, a União das Tendas de Umbanda e Candomblé do Brasil, a Comissão de Defesa das Religiões Afro-Brasileiras (CDRAB) do Rio Grande do Sul, a Fundação Luterana de Diaconia (FLD), a Rede Ecumênica da Juventude (REJU), o Fórum do Diálogo Religioso de São Bernardo do Campo, a Associação Brasileira de Apoio a Vítimas de Preconceito Religioso (ABRAVIPRE), o Comitê Interreligioso do Estado do Pará (COMITER), a Associação Brasileira de Liberdade Religiosa e Cidadania (ABLIRC), a Comissão de Direito e Liberdade Religiosa (OAB/SP), entre outros. Diversos religiosos e não-religiosos estão unidos no combate à intolerância religiosa no Brasil, mostrando que a convivência pacífica e respeitosa entre distintas crenças e descrenças é possível.

Nós do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária nos juntamos a esta empreitada contra a intolerância religiosa.

Neste mês de janeiro de 2014, realizamos nossa primeira Campanha Contra a Intolerância Religiosa. Nos dois fins de semana que antecederam o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, realizamos uma ação que consistia em tirar fotos nas ruas da cidade de São Paulo de pessoas que estivessem dispostas a nos apoiar carregando cartazes de apoio e respeito às diversas religiões. Também pedimos, através de nossa página no Facebook, que as pessoas enviassem suas fotos com frases que demonstrassem seu respeito à diversidade religiosa.

Nas ruas, diversas pessoas se dispuseram a participar cedendo sua imagem. Contudo, observamos que muitas pessoas não entendiam bem o sentido do respeito e da tolerância à religião alheia. Algumas pessoas, quando indagadas a qual religião pertenciam, diziam pertencer à mesma religião à qual estavam prestando respeito através da escolha do cartaz. Os cartazes de respeito a religiões, cultos, símbolos e adeptos das religiões afro-brasileiras não chamavam tanta atenção, ou não eram tão bem recebidos pelo público de forma geral. Os cartazes de respeito a festas e símbolos religiosos eram melhor aceitos.

A campanha também serviu para mostrar que as concepções de “tolerância” e “respeito” ainda são um tanto incompreendidas, ou não são levadas às últimas consequências. Até mesmo afirmar que respeita-se os adeptos de uma outra religião pode ser interpretado como algo comprometedor para a sua própria crença ou padrão ético. Por isso, alguns afirmaram que respeitavam com ressalvas. De qualquer forma , esperamos que esta campanha tenha sensibilizado diversas pessoas no sentido de eliminar um pouco mais a intolerância religiosa presente no Brasil, seja mostrando que as religiões podem e devem dialogar, seja mostrando que a tolerância e o respeito nunca são demais, e que sempre podemos respeitar mais, tolerar mais, amar mais, mesmo sem perder a nossa identidade religiosa.

* Amauri Alves é redator e tradutor, bacharel em Letras, e membro do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária.
** Silas Fiorotti é cientista social, mestre em Ciências da Religião, doutorando em Antropologia Social, e membro do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária.

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(foto de Amauri Alves – SP, 18/1/2014)

Dia 25 de maio (sábado) às 15h30 tem Aproximação por uma Espiritualidade Libertária

Olá, amig@s,

No próximo sábado (25/5/2013) às 15h30 tem Aproximação por uma Espiritualidade Libertária , tod@s estão convidad@s.

Buscaremos uma espiritualidade libertária através da leitura da obra “Grande Sertão: Veredas” de Guimarães Rosa. Nosso amigo Hugo Alonso Jr. (pesquisador e professor da UMESP) iniciará as discussões com seus comentários.

Lembramos que nosso encontro acontecerá no jardim suspenso do piso Caio Graco (das exposições) do Centro Cultural São Paulo (CCSP), Rua Vergueiro, 1000, São Paulo, próximo ao metrô Vergueiro.

Convidem @s amig@s e compareçam. Tragam muita irreverência e alguns quitutes.

Mantenham a chama acesa!!

Abraços,