Enfrentando o preconceito como alternativa para a promoção da saúde (por Eugênia Zilioli Iost)

O trabalho da Atenção Básica de Saúde (Setor Público) no Brasil enfrenta vários desafios para promover uma população saudável. A UBS (Unidade Básica de Saúde) é a porta de entrada principal para os munícipes iniciarem as investigações das queixas físicas e mentais, aumentando com isso a complexidade no trabalho dos profissionais de saúde.

A visão que temos sobre a Saúde de uma população incide diretamente no processo de trabalho dos profissionais. De acordo com a linha teórica da Saúde Coletiva, os aspectos que podem influenciar no processo Saúde-Doença não são exclusivamente biológicos, a maneira como a sociedade se organiza, socialmente, economicamente e culturalmente, tem uma atuação potencialmente elevada no desenvolvimento das doenças.

Com base nessa teoria, a UBS Alpes do Jaraguá, no município de São Paulo, desenvolveu um projeto intitulado de “Alpes Diversidade”. Este projeto, pretende ampliar a visão de mundo dos profissionais de saúde e demais trabalhadores da Unidade (Segurança, Limpeza, Administrativo), sobre assuntos ligados aos direitos humanos. Em março de 2015, iniciamos rodas de conversa com todos os trabalhadores da UBS, sendo o primeiro tema “Racismo no Brasil”. O segundo tema deste projeto foi a “Intolerância Religiosa às religiões de matrizes africanas”.

Durante as rodas de conversa, contamos com um professor de filosofia que é líder no Candomblé e isso permitiu um aprofundamento sobre o assunto. Apresentamos também um documentário da ONU Brasil sobre o preconceito às religiões de matrizes africanas (ou religiões afro-brasileiras) no Brasil. Durante o debate, os participantes (principalmente cristãos), questionaram sobre os símbolos dessas religiões serem semelhantes à imagem do “demônio” e que se sentiam “mal” quando assistiam aos seus rituais. Estes apontamentos foram fundamentais para que a equipe condutora do Projeto pudesse esclarecer sobre as diferenças entre os símbolos religiosos e os seus significados nas religiões de matrizes africanas.

Foi possível também abordar sobre o modelo eurocêntrico, imposto ao Brasil desde a sua colonização e que o olhar sobre um culto religioso necessita de uma base cultural alinhada à religião específica.

Como gerente dessa UBS, pude observar que essas rodas de conversas, impulsionaram uma reflexão sobre os modelos e conceitos fundamentalistas da nossa sociedade, vários funcionários comentam que hoje estão vendo, por exemplo, as cotas raciais de outra maneira, pois entenderam que desde a libertação dos escravos esta foi a primeira ação de inclusão do negro no sistema de educação.

Esse projeto tem permitido evidenciar que é possível organizar um ambiente propício para a reflexão de temas inclusivos e que não importa onde estamos ou o que fazemos, o fundamental é sairmos da posição de expectadores e atuarmos como protagonistas das nossas vidas.

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Eugênia Zilioli Iost é gerente da UBS Alpes do Jaraguá, mestre em Enfermagem em Saúde Pública, e membro do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária. E-mail: eugeniazilioli@yahoo.com.br.

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O Coletivo por uma Espiritualidade Libertária (de São Paulo) também aceita convites para palestras voltadas para jovens, estudantes, educadores e religiosos. Entre em contato conosco para levar alguma palestra para sua instituição, empresa, escola, igreja, grupo de jovens ou coletivo. Para saber mais sobre a Campanha Contra a Intolerância Religiosa, leia o texto “É preciso dizer não à intolerância religiosa no Brasil” de Amauri Alves e Silas Fiorotti. E para saber sobre o projeto “Diversidade religiosa em sala de aula”, leia o texto “Por que falar de religião em sala de aula?” de Silas Fiorotti.

Contato: espiritualidadelibertaria@gmail.com.

A idolatria da Bíblia (por Angelica Tostes)

Gioacchino da Fiore (1130-1202) , abade cisterciense e filósofo místico, acreditava em três idades da história, e elas se modelavam de acordo com a Trindade. A primeira idade seria o período em que vivíamos sob a lei, caracterizado pela escravidão e temor, pertencente ao Pai. O segundo período seria o  vivemos, a graça, caracterizado pela fé e uma servidão filial, pertencente ao Filho. O terceiro e último estado seria o qual viveremos em um estado de graça mais que perfeita, caracterizado pela liberdade e caridade, que seria o tempo do Espírito. (Vattimo, 2004, p. 43). A leitura bíblica do Espírito é marcada pela caridade e sensibilidade, não mais pela literalidade do texto. É a era marcada pela contemplação e não mais pela “autoridade da letra”.

Vejo que há um movimento de religiosas e religiosos que tem buscado a leitura do Espírito, entretanto, como sempre, estão sofrendo perseguições das próprias comunidades de fé. A liberdade proporcionada pelo Espírito incomoda aqueles que estão apegados a doutrinas e fundamentos sem sentido, eles não suportam a liberdade! E por isso há também um movimento contra a leitura do Espírito:  são os idólatras.

Os ditos “defensores da ortodoxia” idolatram a Bíblia. Essa passa a ser o seu Deus, a quem prestam adoração e sacrifícios. Perseguem aqueles e aquelas que tem uma outra hermenêutica, senão aquela da “literalidade”. Dizem que estes não devem ser considerados cristãos, que devem ser banidos de suas convenções eclesiásticas, que estão profanando a fé. Quando, na realidade, aqueles que idolatram a Bíblia são os que estão adorando outros deuses, profanando o Espírito e a Vida, impondo uma só maneira de leitura e a colocando como centro da fé cristã. “Quando deslocamos Cristo do centro, substituindo-o pela Bíblia, perdemos a essência da fé e caímos em idolatria (substituindo o sentido pelo significado).” (Neto, 2016)

Para o filósofo e poeta alemão Novalis “não há nada como a letra para anular a sensibilidade (religiosa)” (1995, pp. 25-26).  Isso ressoa nas palavras do próprio Jesus “Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês têm a vida eterna. E são as Escrituras que testemunham a meu respeito; contudo, vocês não querem vir a mim para terem vida.” (Jo 5:39,40). Foca-se da Palavra e esquece de quem profere a Palavra. Anula-se a sensibilidade, e assim, o Espírito morre. Como bem disse Feuerbach  que nesses dias “a verdade é considerada profana e somente a ilusão é sagrada.”

“A religião não é marcada profundamente por sistemas teológicos, mas por poesias, contos, canções e rituais” (Neto, 2016). O filósofo Gianni Vattimo acredita, assim como Fiore, na hermenêutica da caridade e, como Novalis, na sensibilidade da fé, que é justamente a poesia e beleza da religião. E a partir dessas duas características de interpretação, a Bíblia se torna a libertação de muitas minorias oprimidas pela própria Bíblia. Deve haver uma conscientização geral de que “a única coisa que conta é a caridade; de fato, somente a caridade constituiu o limite e o critério da interpretação espiritual da Escritura” (Vattimo, 2004, p. 66).

Em uma entrevista o teólogo Walter Brueggemann foi indagado sobre o movimento LGBTQ e disse: “Eu sei que esses textos estão na Bíblia, mas a Bíblia é uma tradição dinâmica que está sempre em movimento para uma nova verdade”.  A contra-reposta foi que muitos temem em desobedecer a Bíblia quando o assunto é esse, e sua resposta não poderia ser mais lúcida: “Não é uma questão de obedecer a Bíblia – é sobre obedecer o Evangelho. O Evangelho é sobre o amor salvífico de Deus que quer restaurar toda a humanidade à plena comunhão. Para voltar a um texto antigo que já foi corrigido pela revelação de Deus em Jesus Cristo é simplesmente uma péssima manobra e uma pobre metodologia e uma irresponsabilidade teológica. Esses textos não são determinantes. Os  textos que são determinantes são aqueles que falam sobre o amor de Deus que tem sido mostrado para nós em Jesus. E não podemos comprometer isso.” (2015)

Quando não se tem uma leitura de caridade das Escrituras Sagradas o próprio evangelho fica comprometido. O Reverendo Luiz Carlos Ramos, em um dos seus belíssimos textos, diz que existem duas maneiras de ler as Escrituras Sagradas. A primeira seria lermos a letra morta, e daí surgiria o legalismo, fundamentalismo, inquisidores e terroristas. A segunda maneira seria optarmos pela mediação do espírito que vivifica, relendo o texto e o que transcende a própria letra, que é a  “força geradora de viva, dinâmica, que se atualiza e se encarna em cada nova geração.”

Os idólatras da Bíblia se tornaram os fariseus dos tempos bíblicos. Não enxergam a dinâmica do Espírito, a dinâmica da fé, pois só leem a letra morta. Por terem medo de perderem a própria “identidade cristã”, oprimem o diferente, tentam moldar a todos para se tornarem iguais, pois assim, sem a divergência de opiniões, sua fé se torna imutável. Os fundamentalistas não compreendem o básico, que “a Bíblia revela a busca humana pelo Sagrado e, por isso, apresenta várias ideias sobre Deus. A Bíblia é plural, não é unívoca” (Neto, 2016). E apresenta também várias interpretações do texto, o que é excelente para a reflexão e ação prática nos dias de hoje.. “O espírito sopra na direção que deseja, o seu é o reino da liberdade e fixar-lhe limites conclusivos seria um modo indevido de restringi-lo” (Vattimo, 2004, p. 45).

Lembro da resposta do meu tio José Thomaz Filho, teólogo e poeta católico, quando fui demitida do colégio que fui contratada por “não ter vivência da fé católica”, citando Marcos 9,38-41 comenta:

“[…] As instituições têm o grande problema de querer controlar Deus, de querer encaixotá-lo. Mas Deus não é encaixotável! […]
Nessa passagem de Marcos vemos que aquele que rejeita acha-se o dono da verdade, e acha que o outro é um atrevido, inoportuno, um atropelador, um herege, um lobo em pele de cordeiro que precisa ser calado, rechaçado. Esquece-se de que a Verdade é Jesus, e não tem dono. Esquece-se de que Ele olha o coração e não a aparência. Esquece-se de que a questão não é mais de adorar a Deus no monte da Samaria ou em Jerusalém (Jo 4,20-24), mas em espírito e verdade.
O processo é sempre esse: primeiro me convenço, não importa por qual razão, de que o outro é diferente, e convenço-me sem ouvi-lo, sem dar-lhe a chance de se revelar; depois coloco-lhe o rótulo de diferente, que leio como inimigo e intolerável, e contra o próprio Deus; e posso, então, eliminá-lo. […] Como Jesus continua não compreendido!… Não sendo respeitado! Sendo perseguido! Sendo crucificado!”

Jesus é crucificado a cada palavra de opressão,a cada violência simbólica, ironia, calúnia contra aos que leem a Bíblia na perspectiva do Espírito. Aos que sofrem a perseguição dos legalistas e idólatras da Bíblia: Espero que a violência do discurso não os atinja e desanime. E que se lembrem que  a única intolerância que devemos ter é aquela que vai de encontro com a de Cristo. Intolerância dos idólatras da Bíblia, dos “peritos na Lei”. Como diz o São Brabo no seu texto “Primeiro passo: Viva a intolerância contra os religiosos”:

“O alvo da nossa intolerância deve ser outro, o alvo que foi também o de Jesus: os que passeiam pelo mundo crendo ter o aval inequívoco e a credencial indelével do Verdadeiro Deus©. Aqueles que, nas palavras de Paulo, estão “persuadidos de serem guias dos cegos, luz dos que se encontram em trevas, instrutores de ignorantes, mestres de crianças, tendo na lei a forma da sabedoria e da verdade” – mas que “ensinam os outros sem ensinarem a si mesmos” (2006).

Assim como Gioacchino da Fiore “profetizou” séculos atrás a respeito da história da salvação, que a Escritura realmente sofra uma transformação “espiritualizante”. Que a revelação bíblica seja além do “seguir literalmente” as Escrituras, mas que adquira um sentido pleno para ser aplicado à nossa realidade. Como bem disse Vattimo “não mais o texto e sim o espírito da revelação; não mais servos e sim amigos; não mais o temor ou a fé e sim a caridade; e, talvez, também não mais a ação e sim a contemplação.” (2004, p. 45)

“De uma coisa eu desconfio com força: Toda religião nasce como poesia e morre como dogma. Dogma é letra morta. Poesia é vida pura. Mas quem lê poesia como quem lê bula de remédio fica doente.

Se bem me lembro, Jesus preferia as parábolas. Jeito atravessado de fazer teologia: converter a vida em poesia e devolver a poesia pra vida.”

Reverendo Luiz Carlos Ramos

Bibliografia

Brabo, Paulo. “Primeiro passo: Viva a intolerância contra os religiosos”, 2006. Disponível em: <www.baciadasalmas.com/1-viva-a-intolerancia>. Acesso em: 22 de julho de 2016.

Brueggemann, Walter. “It’s Not a Matter of Obeying the Bible”: 8 Questions for Walter Brueggemann”, 2015. Disponível em : <www.faithstreet.com/onfaith/2015/01/09/walter-brueggemann-church-gospel-bible/35739>. Acesso em: 21 de julho de 2016.

Neto, Adair. “Como ler a Bíblia?” 2016. Disponível em: <furoa.wordpress.com/2016/07/09/como-ler-a-biblia>. Acesso em: 19 de jullho de 2016.

_____. “Heresias mal redigidas”, 2016. Disponível em: <furoa.wordpress.com/2016/07/25/heresias-mal-redigidas>. Acesso em: 25 de julho de 2016.

Ramos, L. C. “Jeito atravessado de fazer teologia”, 2016. Disponível em <www.luizcarlosramos.net/jeito-atravessado-de-fazer-teologia>. Acesso em: 21 de julho de 2016.

Vattimo, Gianni. Depois da cristandade. Rio de Janeiro: Record, 2004.

* Angelica Tostes é teóloga, membro do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária, e articuladora da Rede Fale SP. E-mail: angelicatostes@gmail.com.
Fonte: <angeliquisses.wordpress.com/2016/07/22/a-idolatria-da-biblia>.

Sobre ser mulher (por Angelica Tostes)

Totaliter aliter! Nos definimos na diferença com o Outro. E parto do pressuposto do Outro sendo Deus. Essa palavra abstrata que remete a tanto significado e dominância. Na história de teologia cristã esse Totalmente Outro, ou Mistério, sempre acabou sendo retratado antropomorficamente na figura masculina. E suas características de força, poder, autoridade, senhorio acabaram se sobressaindo na medida que as Escrituras Sagradas foram escritas por homens. Logo, o Deus descrito na Bíblia é um Deus a imagem e semelhança de seus escritores.

Então, por essa razão, o homem seria a representação ideal de Deus na Terra. Essas características de força, razão, decisão, foram construídas sociologicamente como características masculinas. E onde fica o papel da mulher nessa história? Bem, a mulher não tem muita importância nesse jogo de poder. Deus não se parece uma mulher. Deus não tem características femininas. Deus não é frágil que nem as mulheres. A mulher é irracional, fala muito, é fútil, por isso é melhor trancafiá-la no ambiente privado e não permitir que ela participe do ambiente público.

A Bíblia é um livro que deve ser lido em seu contexto histórico e social. As mulheres não tinham voz naqueles tempos. Foram silenciadas! Suas percepções sobre quem Deus era para elas não importavam, não era algo digno de nota. Seu sofrimento, dúvidas, crises de fé, profecias não foram retratadas como os escritos dos homens da época. O discurso e testemunho do povo de Yahweh é um discurso masculino, de poder e de dominação. A elas só restavam o ambiente domiciliar e sem voz, pois a imagem da mulher não é a imagem de Deus.

A criação e a mulher

A criação do mundo é um tema muito relevante para se pensar sobre a imagem da mulher. Nos povos antigos as deusas eram as grandes figuras da fertilidade. E essa temática da criação e fertilidade entrou também no discurso de Israel. Mas Israel quis quebrar com qualquer proximidade das antigas divindades, sendo assim, todas as funções de fertilidade, reprodução e geração são atribuídas a Yahweh, segundo o teólogo Harrelson, principalmente no livro de Oséias. “Os poetas de Israel não hesitaram em utilizar a linguagem e as imagens da hostil alternativa canaanita para afirmar que Javé é, de fato, o Deus da fertilidade” (BRUEGGEMANN, 2014, p. 234) Mas o que tudo isso tem a ver com a imagem da mulher? O teólogo Walter Brueggemann sugere que “foi a negligência dos temas da criação que produziu parte da crise atual de patriarcalismo na interpretação bíblica” (2014, p. 234).

Sempre houve uma identificação das mulheres com a natureza. Em diferentes culturas é possível encontrar a figura feminina sendo retratada como a natureza, como uma mãe que sustenta e cuida dos filhos. Para a teóloga Ivone Gebara associar a figura da mulher com a natureza também evocava uma realidade do descontrolável, “como natureza violenta, selvagem ou como algo capaz de provocar desordem” (GEBARA, 2000, p. 128). E é nesse ponto que a crítica de Gebara se faz mais forte. Com a revolução científica o homem quis dominar a natureza. “A ideia de poder sobre a natureza e, indiretamente, de poder sobre as mulheres derivam da mesma simbólica. (GEBARA, 2000, p. 128). E assim a natureza não passa a ser mais respeitada nem obedecida, não é mais considerada como um organismo vivo digno, igualmente aconteceu e acontece com as mulheres.

A mulher era associada a estar mais próxima da natureza por sua capacidade de gerar a vida, de nutrição e cuidado com suas crianças. E por essa razão a crítica de Brueggemann é interessantíssima: A criação sempre foi uma associação feminina. No contexto do Antigo Testamento a principal imagem feminina que podemos ressaltar é a da deusa Asherat, considerada parceira/esposa de YAHWEH. É preciso notar a evolução religiosa: Israel nem sempre foi monoteísta. E esse processo de monoteísmo é marcado por uma alta intolerância religiosa e sincretismo religioso, no qual YAHWEH passa a ter características dos deuses da época, como El, Baal, Asherat, todas as características concentradas em um único deus.

“Aserá, na maioria do tempo venerada sob o corpo de uma árvore, era, inicialmente, a parceira de YHWH, mas com o crescente desenvolvimento do javismo como religião de um deus masculino, transcendente e único, ela foi taxada como sua maior rival e inimiga “(OTTERMANN, 2005, p. 48).

Mas com o crescente monoteísmo patriarcal a demonização das imagens femininas cresceu de uma maneira expressiva, e a “inquisição” à sua época deixou marcas indeléveis na espiritualidade da mulher. Silenciar a espiritualidade feminina é deixar uma lacuna na espiritualidade de uma cultura. Quando uma divindade feminina é atacada como inimiga, logo o que a divindade representa também passa a ser considerado como inimigo, o feminino. O medo de Israel de ter outros deuses, e principalmente deusas, foi também um medo do protagonismo feminino na sociedade.

“A marginalização do feminino, das mulheres é um processo que também se dá e se sustenta por meio de escritos bíblicos justificadores de uma sociedade patriarcal, atuando assim no que podemos chamar de “desempoderamento” das mulheres a partir do sagrado, o que trouxe e traz fortes impactos nas dimensões culturais, religiosas, sociais, econômicas e políticas.” (CORDEIRO, 2007, 13-14)

O resgate da imagem do divino feminino tem uma importância na tentativa da reconstrução da História de Israel e o processo dar a voz a essas divindades femininas é a possibilidade da “identificação sagrada das mulheres, em busca de relações mais recíprocas e humanizadas entre os gêneros”.  Quebrar o sagrado como “masculino” é quebrar as relações de poder. É dar espaço a experiência de alteridade religiosa das mulheres ao se identificar com um divino positivo.

A teóloga  Ivone Reimer destaca alguns pontos importantes nessa libertação da demonização da figura feminina através de uma hermenêutica feminista, como por exemplo: “1) Questionar as falas e normas androcêntrico-patriarcais sobre funções dessas minorias; 2) Perguntar pelos efeitos históricos do texto na construção de nossas identidades e relações; 3) É necessário romper com o silêncio sobre experiências de opressão e libertação/resistência vivenciadas nas relações de gênero. 4) Textos sagrados são testemunhos de fé vivida em determinado contexto histórico-cultural. 3) Conhecer e (re)construir imagens de Deus que ajudem nesse processo de desconstrução e reconstrução.” (REIMER, 2008, p.45-46)

A imagem de Deus

Como nos definir como mulher se a imagem de Deus é totalmente masculina? Primeiramente devemos desconstruir essa imagem de Deus! Deus não é homem, Deus não é mulher. Deus não está nesse mundo de dualidades. Há uma palavra em sânscrito que descreve bem essa característica: ADVAITA. A não-dualidade. Não é apenas trocar o Deus-Pai por Deus-Mãe, é assumir a impotência de definição sobre quem é esse Mistério do qual chamamos Deus. Deve haver uma substituição da linguagem mitológica que herdamos da Bíblia. Abrir mão da palavra abstrata Deus e substituir por palavras que expressem a experiência e o evento Deus. Deus não é YAHWEH. Deus não é ASHERAT.

Deus não é um fundamento, conceitos teóricos, teologias. Não possui características “masculinas” ou “femininas”. Para o filósofo Vattimo Deus é um“ser como evento”, “…um evento capaz de mudara vida daqueles que recebem o seu anúncio e cuja relevância, podemos afirmar, consiste justamente nessa mudança” (VATTIMO, 2004, p. 22). Bonhoeffer, teólogo, pastor protestante, questionou valor das palavras – “num mundo arreligioso talvez não se possa mais “falar de Deus”.” (TUNES, 2008, p. 161). Assim, o Deus da Bíblia, para o teólogo alemão, também não é o Deus de certezas metafísicas ou conceitos teóricos – e, portanto, de “fruição” individual ou privada, uma vez que a metafísica traz a transcendência para dentro do sujeito. O Deus da Bíblia é um Deus que age historicamente e, portanto, deve ser antes “vivenciado” do que “falado”. (TUNES, 2008, p. 161)

 Utilizamos a categoria Deus, mas é tão abstrata que caímos no discurso manipulativo sobre Deus, basta ver o que essa bancada evangélica faz com essa categoria abstrata de poder chamada: Deus. Deus se torna um instrumento do jogo de poder e dominação. Toda teologia é uma antropologia. Não no sentido de não haver o Mistério, mas quando tentamos interpretar esse mistério, criamos categorias religiosas antropológicas das quais servem para a dominação da massa social.

Jesus e as mulheres

Tanto do Antigo Testamento quanto no Novo Testamento, as mulheres eram oprimidas pelo patriarcado judeu, e também foram dominadas pela Pax Romana, pela influência da ideologia e cultura greco-romanas.

Entretanto, na figura de Cristo há uma quebra do paradigma da diferença de gênero, pois Jesus dá visibilidade e voz para que as mulheres possam falar, agir e se sentirem dignas: Sentar ao pé do mestre (Lc 10:39), ungir seu Senhor (Lucas 7:37-38), ser evangelista (Jo 4:28-29), anunciar a ressurreição (Mt 28:8), coisas jamais imaginadas para época. Tais atitudes sempre foram alvos de estranhamento e críticas, por parte das classes dominantes e até mesmo dos discípulos que o seguiam.

Características da mulher

Partindo para algo mais pessoal nesse texto: sempre ouvi de meus colegas e amigos que era mais “macho” que muito homem. Por simplesmente ser uma mulher decidida, de personalidade forte, que utiliza muito a razão e por me posicionar de maneira clara. Mas “peralá”… Por quê raios a minha personalidade era vista como algo que era associado ao mundo masculino?  Quais são as características de uma “verdadeira mulher”?

“A mulher tem medo de ser separada, de ser abandonada por Deus. Tem medo também de não corresponder a um certo ideal de comportamento estabelecido pela cultura. Ela tem medo de não ser aceita pelos homens e reconhecidas pelas outras mulheres. E este medo leva quase inevitavelmente à alienação de si mesma. Deixa de ser ela mesma para tornar-se o que os outros esperam dela. Perde-se a si mesma, muitas vezes sem ter consciência, identifica-se aos modelos estabelecidos, como se eles fossem seu único caminho de vida e de salvação.” (GEBARA, 2000, p. 136)

Confesso que quando li essa citação fiquei desnorteada. Que frase! Como isso se faz real na vida dos milhares de mulheres ao redor do mundo. Submissão, delicadeza, servidão, doçura, habilidades domésticas. Essas são as “características” ditas femininas pela cultura. E quando não nos enquadramos nesse tipo de padrão toda uma cultura social e religiosa nos oprime. Oprimindo nosso pensar, nosso falar, nossos desejos e nossos corpos.

Outra experiência de vida que ilustra a crise de ser mulher e a opressão das mulheres pelas igrejas. Em 2013 vivenciei uma série de episódios em relação à igreja, todos eles negativos. Embora os acontecimentos sejam caóticos demais para esse texto, relatarei algumas frases do pastor de jovens da igreja em relação à minha irmã. Todas em relação a ela, na frente dela, mas não para ela. A covardia de um homem sem escrúpulos e ouso em dizer, sem o tão “amado deus”. Duas frases foram ditas para o seu ex-namorado: “quando o homem se omite a mulher se expõe” ; “depois que você começou a namorar com a Patrícia você regrediu, você é uma frustração para mim”. Outra frase marcante foi em um diálogo entre nós, os pastores titulares da igreja e esse pastor de jovens. Novamente em relação à minha irmã: “É, pastor… quando você ouve o discurso dela a gente quase chora. Ela é hostil, se faz de vítima…”. E agora relato uma violência do próprio contra a minha pessoa enquanto estávamos discutindo: “Angelica, não vem ‘teologizar’ aqui não”. Nota-se um discurso totalmente misógino vindo de um líder que se diz cristão.

Penso quantas outras mulheres não sofrem nas mãos de líderes do tipo. Coisas ainda piores, abusos psicológicos e físicos. Tudo isso por não estar dentro das características e virtudes da “verdadeira mulher cristã”. A submissa, a sem voz, a menosprezada, a que não se impõe, a “bela, recatada e do lar”, a sofredora. Fico entristecida e estarrecida de imaginar o que deve se passar nos bastidores de muitas igrejas. Ouvir esse tipo de discurso sobre como uma mulher “deve ser” acaba perpetuando uma cultura e tradição da fragilidade e dependência da mulher.

O patriarcalismo desenvolveu nas mulheres uma educação à renúncia, segundo Gebara. E essa renúncia é vista como algo da própria essência da mulher, é uma cruz imposta, um sacrifício obrigatório das mulheres. E quem tenta sair desse sistema de opressão se torna uma ameaça a “ordem”, gera medo e inveja das próprias outras mulheres que ainda são vítimas dessa opressão.

As características de uma verdadeira mulher são as características que cada mulher possuí! Não há generalizações. Nenhum ethos social ou religioso pode determinar como uma mulher deve ser ou se comportar. Ser mulher é algo além do estereótipo imposto pela sociedade e religião. Devemos resgatar a força e espiritualidade feminina. Uma espiritualidade além do que nos foi imposto pelo cristianismo patriarcal e pela teologia feita apenas por homens.

Que não mais nos calemos perante a dor, a injustiça cometida pela sociedade e líderes religiosos, pelos padrões culturais e estéticos. Que não mais aceitemos a teologia feita por homens e para homens, reproduzindo o desprezo das mulheres e subjugando seus corpos. Que esse seja o momento de união e luta em defesa dos direitos das mulheres, de TODAS! Um cristianismo que não busca o fim da opressão do pobre e das minorias não deveria nem se quer se chamar cristianismo.

“Que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre.”
Simone de Beauvoir

Bibliografia

GEBARA, Ivone. Rompendo o silêncio: Uma fenomenologia feminista do mal. Petrópolis: Editora Vozes, 2000.

BRUEGGEMANN, Walter. Teologia do Antigo Testamento: Testemunho, disputa e defesa. São Paulo: Paulus, 2014.

CORDEIRO, Ana Luisa Alves. ASHERAH: A Deusa Proibida. Revista Aulas. Dossiê Religião N.4 – abril 2007/julho 2007

OTTERMANN, M. 2005. Vida e prazer em abundância: A Deusa Árvore. Mandrágora. São Paulo, ano XI, nº 11: 40-56.

REIMER, Ivoni Richter. Para memora delas! Textos e interpretações na (re)construção de cristianismos originários.  Revistas Estudos Teológicos São Leopoldo v. 50 n. 1 p. 41-53 jan./jun. 2010

TUNES, Suzel Magalhães. O cristianismo não religioso em Bonhoeffer e Vattimo. Revista Horizonte, Belo Horizonte, v. 6, n. 12, p.157-168, jun. 2008.

VATTIMO, Gianni. Depois da cristandade. Rio de Janeiro: Record, 2004.

 

* Angelica Tostes é teóloga, membro do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária, envolvida em questões de diálogo inter-religioso e teologia feminista.
E-mail: angelicatostes@gmail.com.
Fonte: https://angeliquisses.wordpress.com/2016/06/02/sobre-ser-mulher/