Questões que os líderes evangélicos no Brasil precisam responder

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O grande crescimento dos evangélicos no Brasil, algo que vem ocorrendo nas últimas décadas, representa uma redefinição do próprio religioso. Os católicos sempre constituíram o grupo religioso majoritário e sempre definiram o lugar da religião no Brasil, mas isto vem mudando. Os evangélicos já constituem aproximadamente 31% da população e continuam crescendo, enquanto os católicos constituem aproximadamente 50% da população e continuam decrescendo. Nos próximos cinco ou dez anos, se a tendência continuar a mesma, os evangélicos constituirão o maior grupo religioso no Brasil. Esta presença evangélica é um desafio quando pensa-se no jogo democrático brasileiro, na concepção de laicidade que está se constituindo e nos limites (ou ausência de limites) da liberdade religiosa.

Os eleitores evangélicos são aqueles mais suscetíveis a seguirem a opção política indicada por seus pastores e bispos. Mesmo quando diversos líderes evangélicos dizem que não misturam religião com política, é possível constatar que eles participam da política partidária de forma dissimulada. Por exemplo, quando há convocação para “jejum e oração pelo Brasil” significa que é no sentido de apoio a determinado governo ou candidato, mas quando há convocação para “jejum e oração contra a iniquidade” é no sentido de oposição a determinado governo ou candidato. Quando há menção ao princípio da submissão às autoridades é somente em relação ao governo que agrada os respectivos líderes evangélicos, caso contrário isto não é mencionado.

Os próprios líderes das grandes igrejas pentecostais atuam direta ou indiretamente na política partidária. São pastores, reverendos e bispos evangélicos, ou seus filhos e outros familiares, que fazem parte das frentes parlamentares ou bancadas evangélicas no Congresso Nacional e nas câmaras estaduais e municipais, que estão na direção de alguns partidos e que ocupam cargos públicos. Esta atuação dos líderes pentecostais caracteriza-se como abuso do poder religioso e prejudica o jogo democrático brasileiro, porque os membros das igrejas evangélicas se sentem obrigados a seguirem os mesmos posicionamentos políticos de seus líderes.

Não são somente os líderes pentecostais que estão na política partidária. Diversos membros do governo de Jair Messias Bolsonaro são pastores de igrejas evangélicas históricas (estão atuando no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, no Ministério da Justiça, no Ministério da Educação, entre outros). Mesmo que estes pastores defendam a laicidade em seus discursos, defendam a separação entre o estado e as instituições religiosas, o próprio fato deles serem líderes religiosos e, ao mesmo tempo, membros de um governo já caracteriza-se como uma violação do princípio da laicidade.

O que dizer das candidaturas de líderes evangélicos pelos partidos de esquerda? Por que os partidos de esquerda estão com esta nova estratégia de apresentar pastores e pastoras, reverendos e reverendas, como candidatos? Por que isto agora? A resposta padrão tem sido: “laicidade não pode ser confundida com proibição da participação política por pessoas de fé”. Quando o pastor ou pastora, reverendo ou reverenda, é candidato dos partidos de esquerda, deixa de ser visto como líder religioso e passa a ser considerado apenas uma “pessoa de fé”. Esta é a forma da esquerda amenizar a violação do princípio da laicidade que ela promove.

Constata-se que líderes evangélicos de diferentes denominações e com as mais variadas posições políticas não estão dispostos a discutir e definir os limites da liberdade religiosa. Isto nos remete a outras questões relacionadas às atividades das igrejas evangélicas. Como os líderes evangélicos não estão dispostos a discutir sobre a laicidade e a liberdade religiosa de um modo geral, uma estratégia que podemos utilizar é colocando questões relativas a casos concretos:

  • O que você acha das dívidas milionárias das igrejas evangélicas relacionadas a encargos trabalhistas? Isto é ético e aceitável? Sim ou não?
  • O que você acha das igrejas evangélicas remunerarem seus pastores com base na arrecadação, como se fosse uma participação nos lucros? Isto é ético e aceitável? Sim ou não?
  • Você acha ético e aceitável as lideranças pedirem dízimos e ofertas para pessoas pobres? Você acha ético e aceitável pedir dízimos e ofertas para quem tem renda inferior a um salário mínimo? Sim ou não?
  • Você acha ético e aceitável um líder religioso (pastor, pastora, reverendo, reverenda, bispo, bispa, etc.) atuar ao mesmo tempo como líder religioso e como político, ter o púlpito e a tribuna? Isto é ético e aceitável? Sim ou não?

Esses elementos apresentados indicam que a presença evangélica tem de alguma forma prejudicado o jogo democrático brasileiro. É imprescindível discutir sobre a concepção de laicidade que está se constituindo no Brasil, é preciso estabelecer alguns limites mínimos para a liberdade religiosa, algo que seja minimamente aceitável, e coibir as atividades criminosas no meio evangélico. Se os pastores acham que propor algo assim trata-se de perseguição contra os evangélicos, então pelo menos respondam algumas questões concretas.

[Este artigo foi publicado originalmente no jornal A Pátria, Funchal, 21/7/2020.]

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Silas Fiorotti é membro do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária e coordenador do projeto Diversidade Religiosa em Sala de Aula. Email: <silas.fiorotti@gmail.com>.

Referências:
Fiorotti, S. Liberdade religiosa dos evangélicos em tempos de pandemia. In: A Pátria, Funchal, 23/3/2020.
Fiorotti, S. Educação básica como um campo em disputa para evangélicos. In: A Pátria, Funchal, 06/5/2020.
Tsavkko-Garcia, R. Is Brazil Becoming an Evangelical Theocracy? In: Sojourners, Washington DC, 02/1/2020.

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Coletivo por uma Espiritualidade Libertária lançou o informativo Diálogos & Espiritualidade que aborda a questão da intolerância religiosa. Esta publicação está no âmbito das atividades da Campanha Contra a Intolerância Religiosa e do projeto Diversidade Religiosa em Sala de Aula. Para saber mais sobre estas atividades, leia os textos “É preciso dizer não à intolerância religiosa no Brasil”, “Por que falar de religião em sala de aula?”, e “É preciso combater a intolerância religiosa na educação básica”.

Informações (sobre cursos, palestras e oficinas) e contatos: <espiritualidadelibertaria@gmail.com>.

Artigo “Intolerância Religiosa dos Evangélicos na Educação Básica” publicado na Revista Interritórios

Na última edição da Revista de Educação Interritórios (v. 5, n. 9, 2019) foi publicado o artigo Intolerância religiosa dos evangélicos na educação básica: breve análise de alguns casos de autoria de Silas Fiorotti, coordenador do projeto Diversidade Religiosa em Sala de Aula.

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Segue abaixo o resumo do artigo:

Resumo: O artigo apresenta uma breve análise de dezoito casos de intolerância religiosa ocorridos, entre 2004 e 2018, no âmbito da educação básica; e também uma reflexão sobre duas atividades. Estes casos foram classificados em cinco tipos de intolerância religiosa na educação básica. Seguindo a perspectiva antropológica que identifica a presença do religioso nas proibições, identificou-se diversas proibições em relação às religiões e aos símbolos afro-brasileiros. Apontou-se que o religioso presente nas escolas está associado a um Deus belicoso do pentecostalismo que propaga a guerra espiritual. Os casos analisados indicam que quem mais sofre com a intolerância religiosa nas escolas são pessoas adeptas das religiões afro-brasileiras e negras, e quem mais comete os atos de intolerância religiosa são pessoas evangélicas. E, por fim, como medida de combate à intolerância religiosa, há um apelo para que estudantes, professores e demais profissionais da educação estejam efetivamente em contato e em diálogo com os religiosos afro-brasileiros.

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Coletivo por uma Espiritualidade Libertária lançou o informativo Diálogos & Espiritualidade que aborda a questão da intolerância religiosa. Para saber sobre o projeto Diversidade Religiosa em Sala de Aula, leia os textos “Por que falar de religião em sala de aula?” e “É preciso combater a intolerância religiosa na educação básica”.

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“Vivenciar o candomblé é estar em contato com a minha ancestralidade, é me reconhecer no mundo”, entrevista com Cintia Quina

Entrevista com Cintia Quina, concedida a Silas Fiorotti, membro do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária, no dia 28 de abril de 2019, dentro das atividades do projeto Diversidade Religiosa em Sala de Aula.

Há quanto tempo você é candomblecista? O que é ser uma candomblecista para você?

Minha trajetória na religião de matriz africana vem de uma trajetória familiar na umbanda com a minha bisavó e avó materna. Meu primeiro contato com o candomblé foi em 2006 e, desde então, fui buscando conhecimento sobre esta cultura e construindo minha fé. Não sou iniciada ainda, pode ser que eu venha me iniciar em algum momento; por enquanto, só passei pelo ritual de bori.

Vivenciar, mesmo que de forma singela, o candomblé, a umbanda, é estar em contato com a minha ancestralidade, é me reconhecer no mundo.

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Você já sofreu algum tipo de preconceito por conta da sua fé?

Sim, sim, de acordo com a sofisticação que caracteriza o racismo brasileiro; sutil, utilizando-se de piadas ou com frases do tipo: “pára com isso, sai dessa vida!” Vinda muitas vezes da própria família.

Você atua na educação básica e desenvolve pesquisa sobre estudantes candomblecistas. Como a intolerância religiosa se manifesta na educação básica? Você defende alguma abordagem das religiões afro-brasileiras nas escolas para combater a intolerância religiosa?

As crianças e adolescentes não têm muito essa coisa do filtro social e moral que nós temos; portanto, eles falam muito abertamente as coisas, é bem aquela coisa do “macaco”, “sua macumbeira”. Por várias vezes, me vi parando aulas para conversar com a sala sobre isso.

Em termos de abordagem o que eu tenho buscado fazer, além das rodas de conversa sobre as diversas religiões que existem no mundo, quando a questão do racismo é real, acredito que a arte nos ajuda muito nesse processo, a música, a dança, a literatura… Teve um ano, que durante uma atividade da consciência negra, uma sala iria fazer uma apresentação de dança, tudo tranquilo, os ensaios acontecendo e, na véspera da apresentação, uma aluna disse que sua mãe não tinha mais deixado que ela participasse pelo fato de serem evangélicas. Após isto, parei o que estava fazendo, conversei com a sala e disse que o que ensinava para eles era cultura, ciência, e não fé; que cada um tem sua fé, sua religião e que isso não era um problema e, depois desta conversa, a aluna decidiu continuar participando e, no dia da apresentação, caprichou muito no figurino, pesquisou coisas para auxiliar na maquiagem e cabelo das amigas. E ela como aluna branca não entendia porque as pessoas praticavam racismo.

Mesmo sendo evangélico, sei que nós evangélicos temos muita responsabilidade pela intolerância religiosa contra adeptos das religiões afro-brasileiras. Você pode passar alguma mensagem aos evangélicos que não conhecem as religiões afro-brasileiras e seus adeptos?

Bom, que possamos nos respeitar independente de nossa fé, que conheçam mais a respeito, que busquem, pesquisem, dialoguem, que assim poderemos dar um direcionamento muito melhor para as coisas. O quanto a educação se faz necessária, afinal conhecer as religiões de matriz africana é conhecer uma parte da história do Brasil.

Suponho que você possua amigos e familiares que também são evangélicos. Agora no sentido de quebrar estereótipos, você pode citar algum aspecto que você considera positivo relacionado aos evangélicos?

Tenho familiares e amigos evangélicos, sim, e os trato com todo carinho e respeito. Sempre deixei claro que não importa a nossa fé, que podemos ser amigos e nos respeitar. Na escola que trabalho tenho uma colega evangélica com a qual estabeleço uma parceria bem bacana para desenvolvermos ações no combate ao racismo na nossa escola, que é muito grande. Estamos no início de uma longa caminhada de muita luta, muita resistência e diálogos.

Que a paz do Senhor esteja com os irmãos evangélicos e muito axé, que Oxalá nos dê paz.

Agradeço por esta entrevista.

Obrigado pelo convite.

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Cintia Quina é historiadora, mestranda em Educação (Unifesp), e atua como professora da rede estadual de São Paulo (SEE-SP). E-mail: <cintiadehistoria@hotmail.com>.

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