Chamada para textos – Revista Espiritualidade Libertária (n. 5)

Espiritualidade Libertária é uma revista publicada pelo Coletivo por uma Espiritualidade Libertária de São Paulo (ISSN 2177-4331).

Surgida em 2010, seus números são temáticos, abertos à pluralidade de interpretações para compreensão dos fenômenos socioculturais relacionados à espiritualidade. Cada número também contempla uma seção livre voltada para trabalhos que não estejam diretamente relacionados com o tema. Seu campo de interesse compreende temas relacionados com teologia, filosofia, antropologia e áreas afins. Como norma geral, os artigos científicos, ensaios e resenhas devem ser apresentados para avaliação prévia da Comissão Editorial e submetidos a pareceristas do Conselho Consultivo.

Aceitamos preferencialmente trabalhos inéditos nos seguintes formatos: artigo científico, ensaio, resenha de livro, texto traduzido, e entrevista.

Os textos devem ser enviados ao e-mail da revista (espiritualidadelibertaria@gmail.com) até o dia 31 de janeiro de 2017.

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Dossiê: “Liev Tolstói & espiritualidade” (responsável: Alysson Aquino)

Liev Nicolaievitch Tolstói (1828-1910) foi um grande romancista russo, internacionalmente conhecido pelos clássicos “Guerra e Paz” e “Anna Karienina”, entre outros. Foi rico, um filho da aristocracia, e casou-se com Sófia Sônia Andrêievna Bers (1844-1919), com quem permaneceu casado por 48 anos e teve 13 filhos. No final de sua vida, ele experimentou mudanças radicais em seu pensamento e em suas práticas. Nesse período, Tolstói refletiu sobre diversas temáticas como a natureza, a vida no campo, o militarismo, os valores sociais, mas em todas elas é possível observar a presença de um eixo articulador: uma compreensão libertária do cristianismo. Assim, Tolstói questionou a autoridade das igrejas, dos governos e a noção de propriedade privada em textos de grande repercussão como “O reino de Deus está em vós”, de 1893. Sua prática espiritual sugeria um cristianismo capaz de negar o Estado a partir da resistência pacífica e de transformações morais individuais de caráter radical. O pensamento de Tolstói incentivou militantes de vários países, incluindo anarquistas brasileiros. Além disso, a força intelectual de suas elaborações alcançou diversos círculos intelectuais por muitos anos após a sua morte, tornando-o responsável pelo aparecimento de outros pensadores vinculados a certa tradição de matriz anarquista cristã.

A partir desse quadro, esse dossiê busca colaborações que façam conexões, das mais diversas perspectivas, entre a vida e a obra desse autor e suas concepções místicas e espirituais. Além disso, o dossiê também busca incorporar diálogos que apresentem práticas políticas, resistências pacifistas, experimentações educativas e pedagógicas, ações naturistas e reflexões ecologistas que tenham suas concepções influenciadas por esse brilhante pensador que foi Tolstói.

VII Feira Anarquista de São Paulo (13/11/2016)

No dia 13 de novembro (domingo) a partir das 10h, ocorrerá a VII Feira Anarquista de São Paulo, organizada pela Biblioteca Terra Livre, aqui na cidade de São Paulo.

Na edição deste ano (2016), acontecerá mostra editorial e venda de livros, jornais, revistas, fanzines e outros materiais libertários. Paralelamente à mostra editorial haverá palestras e debates, assim como diversas atividades culturais, como exposições, poesias, apresentações teatrais, musicais e outras atividades.

A entrada é gratuita. O evento ocorrerá no Espaço Cultural Tendal da Lapa, na Rua Constança, 72, Lapa, São Paulo, SP, próximo à estação de trem e terminal de ônibus Lapa.

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Nós, do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária, apoiamos este evento. Para saber mais sobre o nosso coletivo, visite a nossa página ou entre em contato conosco através do e-mail: espiritualidadelibertaria@gmail.com.

Acesse também o conteúdo da Revista Espiritualidade Libertária.

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Intolerância no Dia do Combate à Intolerância Religiosa (por Angélica Tostes, 21/1/2016)

A intolerância não tem dia. Mesmo hoje (21) sendo o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, fui vítima dessa forma de discriminação.

Eu sou teóloga evangélica. Me formei no ano passado em Teologia na Universidade Presbiteriana Mackenzie. E como pós formada na Universidade estava procurando um emprego e logo me avisaram de uma vaga de professor em um colégio católico franciscano para dar aulas na matéria de Ensino Religioso. Fui na entrevista no ano passado, tudo ocorreu de maneira maravilhosa; fiquei sabendo que o Ensino Religioso no colégio era uma “Ciências da Religião” simplificada e me animei bastante. E nesse ano fui chamada para fazer uma avaliação – mais uma parte do processo de possível contratação. A diretora me elogiou e disse que fui muitíssimo bem, e que me daria a oportunidade de iniciar como professora da disciplina.

Pois bem, iniciei essa semana (18 de janeiro de 2016) e tudo estava bem. Ontem (20), fiquei o dia inteiro em um dos colégios para palestra e uma reunião com a Pastoral e Ensino Religioso do colégio. Quando disse que fiz Teologia no Mackenzie (teologia protestante e reformada) as irmãs começaram a me indagar sobre várias questões a respeito da fé, e com um estranhamento perguntaram se eu era católica, e eu disse “não, sou cristã de linha evangélica”. E as perguntas ficaram mais específicas sobre se eu tinha algum problema com imagens, as festividades, ritos, etc. O que obviamente não tenho problemas, pois considero toda a experiência religiosa válida e todas têm o mesmo objetivo: alcançar o Inalcançável, que cada um coloca um nome.

E eis que me surpreendo: hoje (21), coincidentemente no Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, fui demitida por não pertencer à fé católica. Fiquei apenas 4 dias no meu “novo trabalho”, sem ao menos ser avaliada pela qualidade de minhas aulas, sem ao menos considerarem meus conhecimentos do assunto. A ética e o respeito passaram longe daqueles que se dizem seguir os ensinamentos de São Francisco.

É muito frustrante quando sua religião importa mais que sua competência para exercer a atividade. E como teóloga é impossível aguentar calada toda essa situação de intolerância,  situação da qual muitos enfrentam diariamente. É incompreensível alguém julgar a aptidão de uma pessoa por questões de etnia, religião, nação, etc.  A intolerância religiosa é definida como um crime de ódio que fere a liberdade e a dignidade.

O que vivenciei no dia de hoje é muito inexplicável. As palavras não conseguem demonstrar a tristeza que me abate, e não apenas por ter acontecido comigo e ter frustrado meus planos, mas por saber que milhares de pessoas passam por isso diariamente. Sofrem caladas, amedrontadas e coagidas por pessoas intolerantes e querem impor seus dogmas de fé “goela abaixo”. O cristianismo, seja ele católico ou evangélico, perdeu sua essência, a de Jesus. A essência de acolhimento, misericórdia e que não faz acepção de pessoas. Não julga com olhos, mas conhece pelo coração.

A tradição religiosa matou o Sagrado. A ideologia religiosa cegou os povos. E assim vamos vivendo essa vida de incoerência entre palavras e atos.  Manchamos os nomes dos nossos deuses, santos, orixás e outras divindades por não agirmos como eles nos ensinaram. Manchamos o nome do que se diz “humanidade” por simplesmente não agirmos de maneira “humana”.

O Papa Francisco confiou as intenções de oração para janeiro, e as mesmas eram sobre a questão de diálogo inter-religioso e ecumenismo. E ainda nos deixa uma frase que não condiz com a atitude do colégio em questão:

“Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e justiça.” (Papa Francisco)

Termino esse post com uma música do Legião Urbana, Anjos:

“Hoje não dá
Hoje não dá
Não sei mais o que dizer
E nem o que pensar

Hoje não dá
Hoje não dá
A maldade humana agora não tem nome
Hoje não dá

Pegue duas medidas de estupidez
Junte trinta e quatro partes de mentira
Adicione a seguir o ódio e a inveja
À dez colheres cheias de burrice

Stop! Como é que é?
Calma! Como se faz uma receita pra intolerância e a injustiça?
Vamos lá!

Pegue duas medidas de estupidez
Junte trinta e quatro partes de mentira
Coloque tudo numa forma, untada previamente
Com promessas não cumpridas
Adicione a seguir o ódio e a inveja
À dez colheres cheias de burrice
Mexa tudo e misture bem
E não se esqueça, antes de levar ao forno
Temperar com essência de espírito de porco
Duas xícaras de indiferença
e um tablete e meio de preguiça

[…]

Gostaria de não saber destes crimes atrozes
É todo dia agora e o que vamos fazer?
Quero voar pra bem longe, mas hoje não dá
Não sei o que pensar e nem o que dizer
Só nos sobrou, do amor, a falta que ficou”

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* Angélica Tostes é bacharel em Teologia e membro do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária. E-mail: angelicatostes@gmail.com.
Fonte: https://angeliquisses.wordpress.com/2016/01/22/intolerancia-no-dia-do-combate-a-intolerancia-religiosa/.