Sobre ser mulher (por Angelica Tostes)

Totaliter aliter! Nos definimos na diferença com o Outro. E parto do pressuposto do Outro sendo Deus. Essa palavra abstrata que remete a tanto significado e dominância. Na história de teologia cristã esse Totalmente Outro, ou Mistério, sempre acabou sendo retratado antropomorficamente na figura masculina. E suas características de força, poder, autoridade, senhorio acabaram se sobressaindo na medida que as Escrituras Sagradas foram escritas por homens. Logo, o Deus descrito na Bíblia é um Deus a imagem e semelhança de seus escritores.

Então, por essa razão, o homem seria a representação ideal de Deus na Terra. Essas características de força, razão, decisão, foram construídas sociologicamente como características masculinas. E onde fica o papel da mulher nessa história? Bem, a mulher não tem muita importância nesse jogo de poder. Deus não se parece uma mulher. Deus não tem características femininas. Deus não é frágil que nem as mulheres. A mulher é irracional, fala muito, é fútil, por isso é melhor trancafiá-la no ambiente privado e não permitir que ela participe do ambiente público.

A Bíblia é um livro que deve ser lido em seu contexto histórico e social. As mulheres não tinham voz naqueles tempos. Foram silenciadas! Suas percepções sobre quem Deus era para elas não importavam, não era algo digno de nota. Seu sofrimento, dúvidas, crises de fé, profecias não foram retratadas como os escritos dos homens da época. O discurso e testemunho do povo de Yahweh é um discurso masculino, de poder e de dominação. A elas só restavam o ambiente domiciliar e sem voz, pois a imagem da mulher não é a imagem de Deus.

A criação e a mulher

A criação do mundo é um tema muito relevante para se pensar sobre a imagem da mulher. Nos povos antigos as deusas eram as grandes figuras da fertilidade. E essa temática da criação e fertilidade entrou também no discurso de Israel. Mas Israel quis quebrar com qualquer proximidade das antigas divindades, sendo assim, todas as funções de fertilidade, reprodução e geração são atribuídas a Yahweh, segundo o teólogo Harrelson, principalmente no livro de Oséias. “Os poetas de Israel não hesitaram em utilizar a linguagem e as imagens da hostil alternativa canaanita para afirmar que Javé é, de fato, o Deus da fertilidade” (BRUEGGEMANN, 2014, p. 234) Mas o que tudo isso tem a ver com a imagem da mulher? O teólogo Walter Brueggemann sugere que “foi a negligência dos temas da criação que produziu parte da crise atual de patriarcalismo na interpretação bíblica” (2014, p. 234).

Sempre houve uma identificação das mulheres com a natureza. Em diferentes culturas é possível encontrar a figura feminina sendo retratada como a natureza, como uma mãe que sustenta e cuida dos filhos. Para a teóloga Ivone Gebara associar a figura da mulher com a natureza também evocava uma realidade do descontrolável, “como natureza violenta, selvagem ou como algo capaz de provocar desordem” (GEBARA, 2000, p. 128). E é nesse ponto que a crítica de Gebara se faz mais forte. Com a revolução científica o homem quis dominar a natureza. “A ideia de poder sobre a natureza e, indiretamente, de poder sobre as mulheres derivam da mesma simbólica. (GEBARA, 2000, p. 128). E assim a natureza não passa a ser mais respeitada nem obedecida, não é mais considerada como um organismo vivo digno, igualmente aconteceu e acontece com as mulheres.

A mulher era associada a estar mais próxima da natureza por sua capacidade de gerar a vida, de nutrição e cuidado com suas crianças. E por essa razão a crítica de Brueggemann é interessantíssima: A criação sempre foi uma associação feminina. No contexto do Antigo Testamento a principal imagem feminina que podemos ressaltar é a da deusa Asherat, considerada parceira/esposa de YAHWEH. É preciso notar a evolução religiosa: Israel nem sempre foi monoteísta. E esse processo de monoteísmo é marcado por uma alta intolerância religiosa e sincretismo religioso, no qual YAHWEH passa a ter características dos deuses da época, como El, Baal, Asherat, todas as características concentradas em um único deus.

“Aserá, na maioria do tempo venerada sob o corpo de uma árvore, era, inicialmente, a parceira de YHWH, mas com o crescente desenvolvimento do javismo como religião de um deus masculino, transcendente e único, ela foi taxada como sua maior rival e inimiga “(OTTERMANN, 2005, p. 48).

Mas com o crescente monoteísmo patriarcal a demonização das imagens femininas cresceu de uma maneira expressiva, e a “inquisição” à sua época deixou marcas indeléveis na espiritualidade da mulher. Silenciar a espiritualidade feminina é deixar uma lacuna na espiritualidade de uma cultura. Quando uma divindade feminina é atacada como inimiga, logo o que a divindade representa também passa a ser considerado como inimigo, o feminino. O medo de Israel de ter outros deuses, e principalmente deusas, foi também um medo do protagonismo feminino na sociedade.

“A marginalização do feminino, das mulheres é um processo que também se dá e se sustenta por meio de escritos bíblicos justificadores de uma sociedade patriarcal, atuando assim no que podemos chamar de “desempoderamento” das mulheres a partir do sagrado, o que trouxe e traz fortes impactos nas dimensões culturais, religiosas, sociais, econômicas e políticas.” (CORDEIRO, 2007, 13-14)

O resgate da imagem do divino feminino tem uma importância na tentativa da reconstrução da História de Israel e o processo dar a voz a essas divindades femininas é a possibilidade da “identificação sagrada das mulheres, em busca de relações mais recíprocas e humanizadas entre os gêneros”.  Quebrar o sagrado como “masculino” é quebrar as relações de poder. É dar espaço a experiência de alteridade religiosa das mulheres ao se identificar com um divino positivo.

A teóloga  Ivone Reimer destaca alguns pontos importantes nessa libertação da demonização da figura feminina através de uma hermenêutica feminista, como por exemplo: “1) Questionar as falas e normas androcêntrico-patriarcais sobre funções dessas minorias; 2) Perguntar pelos efeitos históricos do texto na construção de nossas identidades e relações; 3) É necessário romper com o silêncio sobre experiências de opressão e libertação/resistência vivenciadas nas relações de gênero. 4) Textos sagrados são testemunhos de fé vivida em determinado contexto histórico-cultural. 3) Conhecer e (re)construir imagens de Deus que ajudem nesse processo de desconstrução e reconstrução.” (REIMER, 2008, p.45-46)

A imagem de Deus

Como nos definir como mulher se a imagem de Deus é totalmente masculina? Primeiramente devemos desconstruir essa imagem de Deus! Deus não é homem, Deus não é mulher. Deus não está nesse mundo de dualidades. Há uma palavra em sânscrito que descreve bem essa característica: ADVAITA. A não-dualidade. Não é apenas trocar o Deus-Pai por Deus-Mãe, é assumir a impotência de definição sobre quem é esse Mistério do qual chamamos Deus. Deve haver uma substituição da linguagem mitológica que herdamos da Bíblia. Abrir mão da palavra abstrata Deus e substituir por palavras que expressem a experiência e o evento Deus. Deus não é YAHWEH. Deus não é ASHERAT.

Deus não é um fundamento, conceitos teóricos, teologias. Não possui características “masculinas” ou “femininas”. Para o filósofo Vattimo Deus é um“ser como evento”, “…um evento capaz de mudara vida daqueles que recebem o seu anúncio e cuja relevância, podemos afirmar, consiste justamente nessa mudança” (VATTIMO, 2004, p. 22). Bonhoeffer, teólogo, pastor protestante, questionou valor das palavras – “num mundo arreligioso talvez não se possa mais “falar de Deus”.” (TUNES, 2008, p. 161). Assim, o Deus da Bíblia, para o teólogo alemão, também não é o Deus de certezas metafísicas ou conceitos teóricos – e, portanto, de “fruição” individual ou privada, uma vez que a metafísica traz a transcendência para dentro do sujeito. O Deus da Bíblia é um Deus que age historicamente e, portanto, deve ser antes “vivenciado” do que “falado”. (TUNES, 2008, p. 161)

 Utilizamos a categoria Deus, mas é tão abstrata que caímos no discurso manipulativo sobre Deus, basta ver o que essa bancada evangélica faz com essa categoria abstrata de poder chamada: Deus. Deus se torna um instrumento do jogo de poder e dominação. Toda teologia é uma antropologia. Não no sentido de não haver o Mistério, mas quando tentamos interpretar esse mistério, criamos categorias religiosas antropológicas das quais servem para a dominação da massa social.

Jesus e as mulheres

Tanto do Antigo Testamento quanto no Novo Testamento, as mulheres eram oprimidas pelo patriarcado judeu, e também foram dominadas pela Pax Romana, pela influência da ideologia e cultura greco-romanas.

Entretanto, na figura de Cristo há uma quebra do paradigma da diferença de gênero, pois Jesus dá visibilidade e voz para que as mulheres possam falar, agir e se sentirem dignas: Sentar ao pé do mestre (Lc 10:39), ungir seu Senhor (Lucas 7:37-38), ser evangelista (Jo 4:28-29), anunciar a ressurreição (Mt 28:8), coisas jamais imaginadas para época. Tais atitudes sempre foram alvos de estranhamento e críticas, por parte das classes dominantes e até mesmo dos discípulos que o seguiam.

Características da mulher

Partindo para algo mais pessoal nesse texto: sempre ouvi de meus colegas e amigos que era mais “macho” que muito homem. Por simplesmente ser uma mulher decidida, de personalidade forte, que utiliza muito a razão e por me posicionar de maneira clara. Mas “peralá”… Por quê raios a minha personalidade era vista como algo que era associado ao mundo masculino?  Quais são as características de uma “verdadeira mulher”?

“A mulher tem medo de ser separada, de ser abandonada por Deus. Tem medo também de não corresponder a um certo ideal de comportamento estabelecido pela cultura. Ela tem medo de não ser aceita pelos homens e reconhecidas pelas outras mulheres. E este medo leva quase inevitavelmente à alienação de si mesma. Deixa de ser ela mesma para tornar-se o que os outros esperam dela. Perde-se a si mesma, muitas vezes sem ter consciência, identifica-se aos modelos estabelecidos, como se eles fossem seu único caminho de vida e de salvação.” (GEBARA, 2000, p. 136)

Confesso que quando li essa citação fiquei desnorteada. Que frase! Como isso se faz real na vida dos milhares de mulheres ao redor do mundo. Submissão, delicadeza, servidão, doçura, habilidades domésticas. Essas são as “características” ditas femininas pela cultura. E quando não nos enquadramos nesse tipo de padrão toda uma cultura social e religiosa nos oprime. Oprimindo nosso pensar, nosso falar, nossos desejos e nossos corpos.

Outra experiência de vida que ilustra a crise de ser mulher e a opressão das mulheres pelas igrejas. Em 2013 vivenciei uma série de episódios em relação à igreja, todos eles negativos. Embora os acontecimentos sejam caóticos demais para esse texto, relatarei algumas frases do pastor de jovens da igreja em relação à minha irmã. Todas em relação a ela, na frente dela, mas não para ela. A covardia de um homem sem escrúpulos e ouso em dizer, sem o tão “amado deus”. Duas frases foram ditas para o seu ex-namorado: “quando o homem se omite a mulher se expõe” ; “depois que você começou a namorar com a Patrícia você regrediu, você é uma frustração para mim”. Outra frase marcante foi em um diálogo entre nós, os pastores titulares da igreja e esse pastor de jovens. Novamente em relação à minha irmã: “É, pastor… quando você ouve o discurso dela a gente quase chora. Ela é hostil, se faz de vítima…”. E agora relato uma violência do próprio contra a minha pessoa enquanto estávamos discutindo: “Angelica, não vem ‘teologizar’ aqui não”. Nota-se um discurso totalmente misógino vindo de um líder que se diz cristão.

Penso quantas outras mulheres não sofrem nas mãos de líderes do tipo. Coisas ainda piores, abusos psicológicos e físicos. Tudo isso por não estar dentro das características e virtudes da “verdadeira mulher cristã”. A submissa, a sem voz, a menosprezada, a que não se impõe, a “bela, recatada e do lar”, a sofredora. Fico entristecida e estarrecida de imaginar o que deve se passar nos bastidores de muitas igrejas. Ouvir esse tipo de discurso sobre como uma mulher “deve ser” acaba perpetuando uma cultura e tradição da fragilidade e dependência da mulher.

O patriarcalismo desenvolveu nas mulheres uma educação à renúncia, segundo Gebara. E essa renúncia é vista como algo da própria essência da mulher, é uma cruz imposta, um sacrifício obrigatório das mulheres. E quem tenta sair desse sistema de opressão se torna uma ameaça a “ordem”, gera medo e inveja das próprias outras mulheres que ainda são vítimas dessa opressão.

As características de uma verdadeira mulher são as características que cada mulher possuí! Não há generalizações. Nenhum ethos social ou religioso pode determinar como uma mulher deve ser ou se comportar. Ser mulher é algo além do estereótipo imposto pela sociedade e religião. Devemos resgatar a força e espiritualidade feminina. Uma espiritualidade além do que nos foi imposto pelo cristianismo patriarcal e pela teologia feita apenas por homens.

Que não mais nos calemos perante a dor, a injustiça cometida pela sociedade e líderes religiosos, pelos padrões culturais e estéticos. Que não mais aceitemos a teologia feita por homens e para homens, reproduzindo o desprezo das mulheres e subjugando seus corpos. Que esse seja o momento de união e luta em defesa dos direitos das mulheres, de TODAS! Um cristianismo que não busca o fim da opressão do pobre e das minorias não deveria nem se quer se chamar cristianismo.

“Que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre.”
Simone de Beauvoir

Bibliografia

GEBARA, Ivone. Rompendo o silêncio: Uma fenomenologia feminista do mal. Petrópolis: Editora Vozes, 2000.

BRUEGGEMANN, Walter. Teologia do Antigo Testamento: Testemunho, disputa e defesa. São Paulo: Paulus, 2014.

CORDEIRO, Ana Luisa Alves. ASHERAH: A Deusa Proibida. Revista Aulas. Dossiê Religião N.4 – abril 2007/julho 2007

OTTERMANN, M. 2005. Vida e prazer em abundância: A Deusa Árvore. Mandrágora. São Paulo, ano XI, nº 11: 40-56.

REIMER, Ivoni Richter. Para memora delas! Textos e interpretações na (re)construção de cristianismos originários.  Revistas Estudos Teológicos São Leopoldo v. 50 n. 1 p. 41-53 jan./jun. 2010

TUNES, Suzel Magalhães. O cristianismo não religioso em Bonhoeffer e Vattimo. Revista Horizonte, Belo Horizonte, v. 6, n. 12, p.157-168, jun. 2008.

VATTIMO, Gianni. Depois da cristandade. Rio de Janeiro: Record, 2004.

 

* Angelica Tostes é teóloga, membro do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária, envolvida em questões de diálogo inter-religioso e teologia feminista.
E-mail: angelicatostes@gmail.com.
Fonte: https://angeliquisses.wordpress.com/2016/06/02/sobre-ser-mulher/

 

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