“Direito, técnica, imagem: os limites e os fundamentos do humano”

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Lembramos que o livro “Direito, técnica, imagem: os limites e os fundamentos do humano”, lançado em 2013, está disponível gratuitamente na página do selo Cultura Acadêmica (Editora UNESP).

Este livro foi organizado por Jorge Barrientos-Parra (UNESP) e Marcus Vinícius DeMatos. O livro é o resultado do trabalho de organização dos Seminários Brasileiros Jacques Ellul, desde 2008, e conta com a colaboração de autores como Bill Vanderburg (University of Toronto) e Patrick Troude-Chastenet (Université Montesquieu / Bordeaux IV), entre outros.

“Intolerância religiosa não é vandalismo, é terrorismo” (por Walmyr Júnior) – 23/6/2014

Intolerância religiosa não é apenas um ato de um grupo de vândalos que desrespeitam a fé alheia, mas é sim uma atitude com o único intuito de causar o terror. Até quando vamos ver a intolerância religiosa execrar nossos direitos? Até quando vamos ter que olhar os desmandos de fundamentalistas e não ver a justiça fazendo o seu papel? Até quando o respeito à liberdade do outro vai ser colocada em segundo plano?

Pensar em respostas para essas perguntas me deixa indignado e de certa forma um pouco nervoso. Vendo os últimos casos noticiados pela imprensa sobre os casos de perseguição religiosa me vejo diante de uma cena catastrófica onde o medo pode me reprimir de livremente expressar meus preceitos religiosos.

Segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, no seu artigo 18, “Todo o homem tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular”.

Para situar os acontecimentos, quero primeiro prestar solidariedade à sudanesa Meriam, que se declarando cristã foi condenada à morte por negar o Islã. Boas notícias, informada pelos seus advogados, falam da sua liberdade depois de dar à luz na prisão, nesta segunda-feira (23).

A condenação à forca de Meriam Yahia Ibrahim Ishag em 15 de maio passado, que pela lei islâmica que proíbe as conversões, se deu pelo fato da filha de um muçulmano ter se casado com um cristão. Antecedendo a forca, Meriam, também foi condenada a 100 chicotadas por adultério, já que para o islã as uniões entre uma muçulmana e um não-muçulmano são consideradas traição conjugal.

Outro caso que me deixou chocado foi o fato que aconteceu na cidade de Carrapateira, sertão da Paraíba, onde um grupo de evangélicos quebrou, cuspiu, urinou e ateou fogo em uma imagem de 1 metro de Nossa Senhora das Graças. Os fiéis da Igreja evangélica liderada pelo pastor Luis Poroca, afirmam que a iniciativa do grupo é legitima pois está escrito na Bíblia para quebrar os ídolos e lançar as imagens fora dos templos.

No Rio de Janeiro, diversos traficantes, de diversas favelas da cidade, se dizem frequentadores de igrejas evangélicas e não toleram a “macumba” nos arredores de seus domínios. Terreiros, roupas brancas e adereços que anunciam a crença são proibidos e quem ousa desobedecer é expulso de suas casas pelos bandidos para não mais voltar.

Fico pensando na falta de tolerância espiritual com que algumas mentes vazias de conceitos têm. A religiosidade e suas manifestações são protegidas pela Lei da Constituição Federal no Brasil que diz: “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;“ (Art. 5, inc. VI)

Não tolerar é no mínimo o fim dos tempos! O Papa Francisco recentemente disse que “na cruz vemos a monstruosidade do homem quando se deixa guiar pelo mal”. Não vejo outra forma de definir esses atos de desrespeito e intolerância à liberdade do outro. Todas as pessoas e suas respectivas religiões merecem proteção e respeito. Ser intolerante é violar o Estado Democrático de Direito. Precisamos urgente de um choque de cidadania e ética para a construção de uma sociedade livre, fraterna, justa e solidária.

Fica aqui a indignação por esses fatos. Fico na esperança por uma revolução democrática em nossa sociedade.

* Walmyr Júnior integra a Pastoral da Juventude da Arquidiocese do Rio de Janeiro, assim como a equipe da Pastoral Universitária Anchieta da PUC-Rio; é membro do Coletivo de Juventude Negra – Enegrecer; e graduado em História pela PUC-Rio.

Fonte: Jornal do Brasil.

Baixe o Guia da Copa do Mundo dos Direitos Humanos

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Baixe gratuitamente e reproduza o Guia da Copa do Mundo dos Direitos Humanos que foi elaborado pelo Coletivo Quilombação e pelo Centro de Estudos Latino-Americanos de Cultura e Comunicação (CELACC/USP).

Este guia procura aproveitar as festividades em torno do maior evento esportivo mundial para trazer à pauta os problemas dos direitos humanos que ocorrem nos países cujas seleções estarão em campo.

“Religiões afro-brasileiras, caminhos de espiritualidade” (por Marcelo Barros) – 02/6/2014

No Rio de Janeiro um juiz decretou que, a partir de agora, as religiões de matriz africana não devem mais ser consideradas como religiões e sim como meros cultos ou costumes. Sua postura discriminadora e elitista veio revelar como, no Brasil, ainda existem preconceitos religiosos e raciais. Vivemos em um país no qual, como dizia Millor, “perante a lei, todas as pessoas são iguais. Só que algumas são mais iguais do que outras”. O fato é que a sentença do juiz foi tão absurda e injusta que, em todo o país, suscitou reações contrárias e ele foi obrigado a reconhecer o seu erro e se retratar.

Não vale a pena recorrer a argumentos sociológicos ou antropológicos para provar que o Candomblé, a Umbanda, a Jurema e quaisquer outras manifestações espirituais de tradição negra ou indígena têm comunidades organizadas, tradições veneráveis, leis próprias, lugares de culto público e, portanto, nada ficam a dever a qualquer outra corrente religiosa. É triste o fato de que um juiz ouse pronunciar uma sentença sem conhecimento de causa. Pelo que deu a conhecer, não sabia nem o que são as religiões de matriz africana, nem estudou corretamente o conceito sociológico e antropológico de religião. Menos ainda desconfiou que estava adentrando em um terreno delicado, no qual teologia e sensibilidade criam labirintos de criatividade que expressam amor e ligam céu e terra.

Se no Brasil não houvesse tanta discriminação religiosa e as religiões afro-brasileiras não fossem vítimas frequentes de agressão violenta, poder-se-ia até interpretar a sentença do juiz de forma diferente. Poderíamos até imaginar que ele quis elogiar as religiões afro e não diminuí-las. Suas palavras poderiam significar que o Candomblé, a Umbanda e as outras expressões da tradição afrodescendente não são apenas religiões. São religiões sim e ninguém pode negar isso, mas vão além das estruturas e da organização religiosa porque se constituem como verdadeiros caminhos espirituais e místicos que fazem bem a todas as pessoas e expressam uma sabedoria que une tradição, cultura e inserção no mundo atual, como profecia social de um mundo mais justo e igualitário.

Pessoalmente, considero-me uma testemunha disso porque sou um monge beneditino (católico) e padre. E devo confessar: cada vez que vou a qualquer culto ou manifestação do Candomblé, vivo uma experiência intercultural e interreligiosa, mas vai além disso. O Candomblé me conduz a uma vivência profundamente mística e espiritual. Sempre que tive qualquer contato com uma manifestação religiosa afro-descendente, senti no coração o apelo para ser mais humano e isso para mim significou que o Espírito Divino baixou e eu pude compreender e, ao menos um pouco, vivenciar a experiência inefável que o apóstolo Paulo viveu quando escreveu: “Já não sou eu que vivo. É o Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20).

Essa experiência de ser possuído pelas mais diversas expressões da divindade (Orixás, Inquices, ou Caboclos) eleva a religião ao estatuto de um caminho de espiritualidade e mística que nem sempre algumas das religiões consideradas pelo tal juiz como as clássicas têm sabido testemunhar.
Mesmo se o juiz voltou atrás em sua sentença, é dever de toda pessoa justa e mesmo de toda comunidade que se considere de fé, seja qual for a sua tradição religiosa, ser solidária umas com as outras e testemunhar de que Deus não assinou contrato de exclusividade com ninguém e o Espírito Divino é como a ventania. “Sopra onde quer. Tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim é a pessoa que nasce do Espírito” (Jo 3, 8).

Fonte: Página do CEBI.

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“Nota Pública de Repúdio” (por Fórum Diversidade Religiosa da Paraíba / Saulo Gimenez Ferreira Ribeiro) – 03/6/2014

“O Fórum Diversidade Religiosa da Paraíba, vem publicamente repudiar as ações de vandalismo e vilipêndio, orquestradas e conduzidas por uma minoria fanática e intolerante de supostos “evangélicos”, sob a batuta do “pastor” Luiz Lourenço (vulgo Pororoca), conforme relata o padre Querino Pedro, administrador da Paróquia Santo Afonso, na cidade de Carrapateira, região de Cajazeiras, que escarneceram de forma vil e pejorativa, segundo as palavras do padre: “Mijaram em cima da imagem, jogaram gasolina e queimaram Nossa Senhora. Dizem que os católicos estão condenados ao inferno”.

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Este ato colabora com o preconceito advindo de “lideranças” religiosas que promovem a discriminação e o desrespeito à diversidade em nosso estado. O Fórum também se solidariza com as pessoas da paróquia e religião que sofrem ao ver seus símbolos sagrados sendo vilipendiados e execrados, onde reforçamos a ajuda e solidariedade.

Este Fórum que funciona na real militância, onde é construído por/para todos(as) de diversas vertentes religiosas, ateus/agnósticos e membros da sociedade civil organizada, esta, feita escutando demandas reais e trabalhando com as minorias, longe de ardis onde grupos ou pessoas levem fama, pois a peleja é de todos(as), clama ao Excelentíssimo Governador do Estado da Paraíba, o Sr. Ricardo Coutinho, que se prontifique à aprovação do projeto já protocolado pela criação do Comitê Estadual de Diversidade Religiosa da Paraíba sob o número: 0001135 de 29/01/2014, onde poderemos realmente trabalhar em extinguir atitudes como essa, em nosso estado. Lutar contra Intolerância Religiosa e a favor do Respeito à Diversidade Religiosa.”

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Assinem a petição para a criação do Comitê Estadual de Diversidade Religiosa da Paraíba.

Por uma espiritualidade sem agrotóxicos!!

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No intuito de sensibilizar a sociedade e pressionar as autoridades quanto ao grave problema do uso dos agrotóxicos, a Rede FALE promove a campanha “FALE em defesa da vida sem agrotóxico”. O objetivo principal é que o emprego dos agrotóxicos [proibidos pela ANVISA] seja terminantemente proibido em todo território nacional.

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Apoiamos esta campanha e pedimos que assinem o abaixo-assinado que será enviado à presidente Dilma Rousseff.

Monólogos que perturbam: silêncios e ausências na Teologia da Libertação hoje (por Maryuri Mora) – 16/5/2014

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Já faz algum tempo que a Teologia da Libertação está em crise. Incômodas vozes de diferentes sujeitos têm interpelado esse paradigma que caracterizou de maneira unívoca o opressor, o oprimido e a si mesmo as condições da libertação. O desafio tornou-se cada vez maior diante da realidade cuja complexa dinâmica cultural e política impede categorizações homogêneas. As vozes, os rostos e as narrativas destes sujeitos sempre existiram e agora simplesmente se fizeram mais evidentes nos interstícios de um mundo que se reconfigurou. Pode a Teologia da Libertação dar conta desta realidade? Pode ela reconhecer as assimetrias de poder no interior do discurso libertador e os limites das categorias analíticas que foram privilegiadas? Essas e outras vozes continuam gritando que não. Não houve e não há uma interlocução real com estes sujeitos. Isso ficou evidente no primeiro Encontro de Juventudes e Espiritualidades Libertadoras de 01 a 04 de Maio, em Fortaleza.

Haverá esperança para a que outrora fora uma teologia viva e encarnada nas lutas cotidianas do continente? Esse encontro acendia uma pequena esperança. A ideia surgiu entre alguns jovens participantes do Congresso Continental de Teologia em São Leopoldo, em outubro de 2012. Nesse congresso se comemorava 50 anos do Concílio Vaticano II e 40 anos da publicação da obra de Gustavo Gutiérrez como texto “inaugural” da Teologia da Libertação. O objetivo era mirar o presente e o futuro da América Latina a partir dos caminhos percorridos, reconhecendo os avanços e retrocessos, mas principalmente apontando os desafios e novas tarefas para a reflexão teológica do continente.

Diante da esmagadora presença “dos” teólogos da libertação e seus temas, surgiu a inquietude pelos jovens, sobre as novas gerações e seu lugar na produção teológica contemporânea, assim como na vida da Igreja na América Latina. A ADITAL (Agência de Informação Frei Tito de Alencar para América Latina e Caribe), então, assumiu esta iniciativa e preparou o encontro com o apoio de outras organizações religiosas, ecumênicas e acadêmicas.E, como esperado, a expectativa era grande. O primeiro encontro de Juventudes e Espiritualidade Libertadora representava o momento oportuno e um espaço fértil para aprender mutuamente, compartilhar as experiências e trajetórias dessa espiritualidade que a grande maioria de nós participantes vivemos em nossos contextos locais, motivados e motivadas pela fé e pelo sonho de outros mundos possíveis. Queríamos e esperávamos um diálogo, uma costura conjunta entre a veterana geração de teólogos (com uma gritante ausência de teólogas) e as novas gerações. Tivemos, ao contrário, um monólogo.

Mais de 300 jovens de diferentes partes do Brasil, com nossas experiências, bandeiras, vivências concretas de espiritualidade e de reflexão teológica, estávamos sentados escutando aos “dinossauros” – como várias vezes foram chamados durante o encontro Leonardo Boff, Frei Betto, Marcelo Barros e João Batista Libânio (falecido recentemente e que havia sido convidado ao encontro) –, sim, o mesmo esquema de poder e autoridade que não deixa de me incomodar nesses espaços: eles ensinam, nós aprendemos. Uma vez mais!

Sem dúvida alguma reconhecemos a importância de Frei Betto, Marcelo Barros e Leonardo Boff, figuras emblemáticas do contexto teológico e político brasileiro, da América Latina e do mundo. Teólogos que caminharam desde sua juventude por estreitas sendas da luta por libertação, assumindo a fé e o caminho de Jesus como força motivadora e como compromisso ético e político para a defesa dos pobres deste continente. Sim, não podemos negar, suas vidas e obras nos inspiraram. Devolveram a muitos e muitas a fé e a esperança em meio à dor, à fome, à barbárie em nossa terra.

Por essa razão, o processo de escuta e aprendizagem não pode se deter. A dimensão pedagógica do encontro, o intercâmbio das experiências de luta – compromisso com a sacralidade da terra, com a defesa dos povos originários, com a luta por direitos de diversas comunidades pelas questões sexuais, étnicas e raciais –, e a intenção de articulá-las e resignificá-las teologicamente deveria ter sido uma dinâmica de via dupla.

Hoje se trata de outro momento, ainda que os desafios permaneçam. As consequências do “progresso” e da “história” continuam produzindo vítimas, gerando miséria e exclusão, de maneiras cada vez mais complexas. Nossos jovens negros estão sendo assassinados nas periferias do Brasil[1]. São mulheres e homens heterossexuais, lésbicas, gays, travestis, transexuais… Tantos nomes e rostos cujos sonhos estão sendo apagados prematuramente aqui e em toda América Latina, porque, além do capitalismo, o racismo, o machismo e a discriminação para com a comunidade LGBTT são pecados que estamos longe de ter assumido com responsabilidade e muito menos de superá-los.

Esse cenário nos recorda que o imperativo libertador continua. Dificilmente “libertação” consegue ou conseguirá ser “o” paradigma de nosso século. Não obstante, enquanto construímos e imaginamos novos paradigmas, a libertação constitui-se ainda nosso caminho cristão e, principalmente, nossa vereda mais humana.

Sabemos atualmente dos equívocos, dos limites analíticos e das ausências que “novos” sujeitos denunciam haver no interior da luta por libertação. Surpreendentemente estas mesmas ausências se mantêm nas palavras destes teólogos. E o que pensar? Trata-se de um desconhecimento da produção teológica das mulheres, gays, lésbicas, indígenas, negros e negras nas últimas décadas? Será? Suspeito que não, mas que corresponde ao contrário, a uma negligência consciente em relação a esses sujeitos, a seus atrevimentos teológicos e a seus lugares ocupados nas igrejas.

Esses sujeitos são ocultados sobre as genéricas categorias de “povo” e “pobres”. Esse pobre sem rosto, sem cor nem raça, e, principalmente, sem sexualidade, é uma metáfora que usurpa a realidade, e é por isso mesmo ideológica. Seu uso constante – quase como um mantra – continua reproduzindo discursos e perspectivas acomodadas, masculinas e hierárquicas. Recorda-nos também o privilégio que a análise econômica mantém no discurso da libertação. O encontro foi, assim, um espaço para comprovar o que advertia Marcella Althaus-Reid[2] que o heterossexismo e a homofobia, assim como certos tipos de racismo e misoginia, são estruturas que permaneceram intactas dentro das teologias da libertação.

Nem os sujeitos nem os temas foram mencionados nas principais conferências, ainda que estivessem presentes nos grupos de trabalho que incluíam gênero e corpo, negritude, política partidária, ecologia, liturgia popular, indígenas, movimentos socais etc. Na organização do evento, parecia haver uma abertura e um reconhecimento destes temas e de sua relevância teológica para repensar a espiritualidade e a juventude na América Latina, porém, houve clara ruptura quando se passou a palavra aos convidados de honra. Nesse momento, nem sequer houve um vocabulário minimamente respeitoso e inclusivo. A teologia feminista brilhou por sua ausência. Nomes, trajetórias e a produção teológica de Ivone Gebara, Nancy Cardoso, Marcella Althaus-Reid, Maricel Mena, André Musskopf, Maria Pilar Aquino, Ada MaríaIsasi Díaz, Cláudio Carvalhaes e tantos e tantas foram totalmente ignoradas.

Na introdução à apresentação de Leonardo Boff, alguém nos desafiou com entusiasmo a nos lançarmos como jovens e assumirmos os novos caminhos teológicos e espirituais do século. Paradoxos desses encontros geracionais. O desafio era realmente nosso para eles. Quando deixarão de fingir que nós temos sido apenas consumidores, e não interlocutoras e interlocutores? Nós vivemos e pensamos o divino. Também pensamos a igreja, pensamos a sociedade desde nossos corpos, nossas realidades e suas múltiplas marcas. Fazer teologia não é um ato de consumir ideias, senão de criá-las e recriá-las. NÓS FAZEMOS TEOLOGIA. Não vale de dada o “desafio” se em um evento como este nos dão as costas e nos ignoram.

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Atualmente nós enfrentamos, assim como eles há 40 anos, rígidas instituições religiosas. Mas pior ainda, além de lutar dentro de dessas instituições e contra seus modelos autoritários, também nos chocamos de frente com essa ambígua tradição hegemônica da Teologia da Libertação, com seus autores e seus restritos temas. Poderiam ter ouvido com atenção à teóloga dominicana Geraldina Céspedes no Congresso Continental de Teologia (2012) quando sabiamente afirmou: “Debemos acompañar los cambios o por lo menos no crear obstáculos para ellos em el flujo de la vida que está aconteciendo”[3]. Mas não há ouvidos nem disposição.

É importante destacar, não obstante, que estes diferentes sujeitos da teologia, ocultos compulsivamente sobre categorias abstratas e homogêneas, continuam provocando e criando rupturas nesse discurso hegemônico. Isso ficou claro nas perguntas e nas muitas vozes que se levantaram para reclamar e criticar dentro e fora dos auditórios. Ah, como é esperançoso ver e tecer saberes nas margens, resistir desde os rincões, nas murmurações e nos gestos de nossos corpos incomodados!

Seria injusto terminar com a sensação de que tudo foi negativo. Não foi. Valeu à pena o encontro, a celebração, as alianças forjadas e as inspirações compartilhadas entre jovens que vivem a fé como compromisso político cotidiano. Valeu à pena pela rica experiência da oficina ministrada por nosso querido André Musskopf sobre Corporeidade e Espiritualidade. Espaço que afirmou o corpo como “fundamento, método e autoridade”. Momentos concretos de uma teologia encarnada, viva, plural.

Finalmente, como nossa juventude somada à nossa fé e desejo de um mundo melhor nos impulsa a seguir sonhando e imaginando, opto pela espiritualidade, tal como veementemente definida por Daniel Souza, meu amigo e companheiro de caminhada na REJU (Rede Ecumênica de Juventude): Uma espiritualidade libertadora é aquela que vivemos na encruzilhada, no compromisso radical de luta por justiça e na festa.

(i) Na encruzilhada de nossos cotidianos latino-americanos, com as marcas que cruzam nossos corpos e contextos. A realidade da juventude em sua luta por sobreviver em sociedades que lhe negam a vida. (ii) Motivada por um compromisso de luta radical por justiça. Cara inspiração à Teologia da Libertação, seu início nas bases e a vida como ato primeiro. (iii) Em festa, não somente por sermos jovens (já que na festa o tempo e o espaço são transgredidos), mas também porque nela irrompe o inesperado, se cruzam os corpos, se rompe a produção… E porque gostamos de festa!

* Maryuri Mora é metodista, teóloga, doutoranda em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e integrante da REJU-SP.

Texto publicado originalmente em: http://www.gemrip.com.ar/?p=1077.
Tradução: Humberto Ramos.
Fonte: Página da REJU.

Notas:
[1] De cada tres asesinatos cometidos en Brasil, dos son de jóvenes negros entre 15 y 24 años de edad, según lo muestra el Mapa de la Violencia (2013) elaborado por el Centro Brasileiro de Estudios Latino-Americanos (Cebela).
[2] Althaus-Reid, Marcella. Desmitologizando a teologia da libertação. Reflexões sobre poder, pobreza e sexualidade. In: SUSIN, Luiz Carlos (org.). Teologia para outro mundo possível. São Paulo: Paulinas, 2006.
[3] http://www.ihu.unisinos.br/noticias/514362-inicia-o-congresso-continental-de-teologia-com-jon-sobrino.