Monólogos que perturbam: silêncios e ausências na Teologia da Libertação hoje (por Maryuri Mora) – 16/5/2014

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Já faz algum tempo que a Teologia da Libertação está em crise. Incômodas vozes de diferentes sujeitos têm interpelado esse paradigma que caracterizou de maneira unívoca o opressor, o oprimido e a si mesmo as condições da libertação. O desafio tornou-se cada vez maior diante da realidade cuja complexa dinâmica cultural e política impede categorizações homogêneas. As vozes, os rostos e as narrativas destes sujeitos sempre existiram e agora simplesmente se fizeram mais evidentes nos interstícios de um mundo que se reconfigurou. Pode a Teologia da Libertação dar conta desta realidade? Pode ela reconhecer as assimetrias de poder no interior do discurso libertador e os limites das categorias analíticas que foram privilegiadas? Essas e outras vozes continuam gritando que não. Não houve e não há uma interlocução real com estes sujeitos. Isso ficou evidente no primeiro Encontro de Juventudes e Espiritualidades Libertadoras de 01 a 04 de Maio, em Fortaleza.

Haverá esperança para a que outrora fora uma teologia viva e encarnada nas lutas cotidianas do continente? Esse encontro acendia uma pequena esperança. A ideia surgiu entre alguns jovens participantes do Congresso Continental de Teologia em São Leopoldo, em outubro de 2012. Nesse congresso se comemorava 50 anos do Concílio Vaticano II e 40 anos da publicação da obra de Gustavo Gutiérrez como texto “inaugural” da Teologia da Libertação. O objetivo era mirar o presente e o futuro da América Latina a partir dos caminhos percorridos, reconhecendo os avanços e retrocessos, mas principalmente apontando os desafios e novas tarefas para a reflexão teológica do continente.

Diante da esmagadora presença “dos” teólogos da libertação e seus temas, surgiu a inquietude pelos jovens, sobre as novas gerações e seu lugar na produção teológica contemporânea, assim como na vida da Igreja na América Latina. A ADITAL (Agência de Informação Frei Tito de Alencar para América Latina e Caribe), então, assumiu esta iniciativa e preparou o encontro com o apoio de outras organizações religiosas, ecumênicas e acadêmicas.E, como esperado, a expectativa era grande. O primeiro encontro de Juventudes e Espiritualidade Libertadora representava o momento oportuno e um espaço fértil para aprender mutuamente, compartilhar as experiências e trajetórias dessa espiritualidade que a grande maioria de nós participantes vivemos em nossos contextos locais, motivados e motivadas pela fé e pelo sonho de outros mundos possíveis. Queríamos e esperávamos um diálogo, uma costura conjunta entre a veterana geração de teólogos (com uma gritante ausência de teólogas) e as novas gerações. Tivemos, ao contrário, um monólogo.

Mais de 300 jovens de diferentes partes do Brasil, com nossas experiências, bandeiras, vivências concretas de espiritualidade e de reflexão teológica, estávamos sentados escutando aos “dinossauros” – como várias vezes foram chamados durante o encontro Leonardo Boff, Frei Betto, Marcelo Barros e João Batista Libânio (falecido recentemente e que havia sido convidado ao encontro) –, sim, o mesmo esquema de poder e autoridade que não deixa de me incomodar nesses espaços: eles ensinam, nós aprendemos. Uma vez mais!

Sem dúvida alguma reconhecemos a importância de Frei Betto, Marcelo Barros e Leonardo Boff, figuras emblemáticas do contexto teológico e político brasileiro, da América Latina e do mundo. Teólogos que caminharam desde sua juventude por estreitas sendas da luta por libertação, assumindo a fé e o caminho de Jesus como força motivadora e como compromisso ético e político para a defesa dos pobres deste continente. Sim, não podemos negar, suas vidas e obras nos inspiraram. Devolveram a muitos e muitas a fé e a esperança em meio à dor, à fome, à barbárie em nossa terra.

Por essa razão, o processo de escuta e aprendizagem não pode se deter. A dimensão pedagógica do encontro, o intercâmbio das experiências de luta – compromisso com a sacralidade da terra, com a defesa dos povos originários, com a luta por direitos de diversas comunidades pelas questões sexuais, étnicas e raciais –, e a intenção de articulá-las e resignificá-las teologicamente deveria ter sido uma dinâmica de via dupla.

Hoje se trata de outro momento, ainda que os desafios permaneçam. As consequências do “progresso” e da “história” continuam produzindo vítimas, gerando miséria e exclusão, de maneiras cada vez mais complexas. Nossos jovens negros estão sendo assassinados nas periferias do Brasil[1]. São mulheres e homens heterossexuais, lésbicas, gays, travestis, transexuais… Tantos nomes e rostos cujos sonhos estão sendo apagados prematuramente aqui e em toda América Latina, porque, além do capitalismo, o racismo, o machismo e a discriminação para com a comunidade LGBTT são pecados que estamos longe de ter assumido com responsabilidade e muito menos de superá-los.

Esse cenário nos recorda que o imperativo libertador continua. Dificilmente “libertação” consegue ou conseguirá ser “o” paradigma de nosso século. Não obstante, enquanto construímos e imaginamos novos paradigmas, a libertação constitui-se ainda nosso caminho cristão e, principalmente, nossa vereda mais humana.

Sabemos atualmente dos equívocos, dos limites analíticos e das ausências que “novos” sujeitos denunciam haver no interior da luta por libertação. Surpreendentemente estas mesmas ausências se mantêm nas palavras destes teólogos. E o que pensar? Trata-se de um desconhecimento da produção teológica das mulheres, gays, lésbicas, indígenas, negros e negras nas últimas décadas? Será? Suspeito que não, mas que corresponde ao contrário, a uma negligência consciente em relação a esses sujeitos, a seus atrevimentos teológicos e a seus lugares ocupados nas igrejas.

Esses sujeitos são ocultados sobre as genéricas categorias de “povo” e “pobres”. Esse pobre sem rosto, sem cor nem raça, e, principalmente, sem sexualidade, é uma metáfora que usurpa a realidade, e é por isso mesmo ideológica. Seu uso constante – quase como um mantra – continua reproduzindo discursos e perspectivas acomodadas, masculinas e hierárquicas. Recorda-nos também o privilégio que a análise econômica mantém no discurso da libertação. O encontro foi, assim, um espaço para comprovar o que advertia Marcella Althaus-Reid[2] que o heterossexismo e a homofobia, assim como certos tipos de racismo e misoginia, são estruturas que permaneceram intactas dentro das teologias da libertação.

Nem os sujeitos nem os temas foram mencionados nas principais conferências, ainda que estivessem presentes nos grupos de trabalho que incluíam gênero e corpo, negritude, política partidária, ecologia, liturgia popular, indígenas, movimentos socais etc. Na organização do evento, parecia haver uma abertura e um reconhecimento destes temas e de sua relevância teológica para repensar a espiritualidade e a juventude na América Latina, porém, houve clara ruptura quando se passou a palavra aos convidados de honra. Nesse momento, nem sequer houve um vocabulário minimamente respeitoso e inclusivo. A teologia feminista brilhou por sua ausência. Nomes, trajetórias e a produção teológica de Ivone Gebara, Nancy Cardoso, Marcella Althaus-Reid, Maricel Mena, André Musskopf, Maria Pilar Aquino, Ada MaríaIsasi Díaz, Cláudio Carvalhaes e tantos e tantas foram totalmente ignoradas.

Na introdução à apresentação de Leonardo Boff, alguém nos desafiou com entusiasmo a nos lançarmos como jovens e assumirmos os novos caminhos teológicos e espirituais do século. Paradoxos desses encontros geracionais. O desafio era realmente nosso para eles. Quando deixarão de fingir que nós temos sido apenas consumidores, e não interlocutoras e interlocutores? Nós vivemos e pensamos o divino. Também pensamos a igreja, pensamos a sociedade desde nossos corpos, nossas realidades e suas múltiplas marcas. Fazer teologia não é um ato de consumir ideias, senão de criá-las e recriá-las. NÓS FAZEMOS TEOLOGIA. Não vale de dada o “desafio” se em um evento como este nos dão as costas e nos ignoram.

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Atualmente nós enfrentamos, assim como eles há 40 anos, rígidas instituições religiosas. Mas pior ainda, além de lutar dentro de dessas instituições e contra seus modelos autoritários, também nos chocamos de frente com essa ambígua tradição hegemônica da Teologia da Libertação, com seus autores e seus restritos temas. Poderiam ter ouvido com atenção à teóloga dominicana Geraldina Céspedes no Congresso Continental de Teologia (2012) quando sabiamente afirmou: “Debemos acompañar los cambios o por lo menos no crear obstáculos para ellos em el flujo de la vida que está aconteciendo”[3]. Mas não há ouvidos nem disposição.

É importante destacar, não obstante, que estes diferentes sujeitos da teologia, ocultos compulsivamente sobre categorias abstratas e homogêneas, continuam provocando e criando rupturas nesse discurso hegemônico. Isso ficou claro nas perguntas e nas muitas vozes que se levantaram para reclamar e criticar dentro e fora dos auditórios. Ah, como é esperançoso ver e tecer saberes nas margens, resistir desde os rincões, nas murmurações e nos gestos de nossos corpos incomodados!

Seria injusto terminar com a sensação de que tudo foi negativo. Não foi. Valeu à pena o encontro, a celebração, as alianças forjadas e as inspirações compartilhadas entre jovens que vivem a fé como compromisso político cotidiano. Valeu à pena pela rica experiência da oficina ministrada por nosso querido André Musskopf sobre Corporeidade e Espiritualidade. Espaço que afirmou o corpo como “fundamento, método e autoridade”. Momentos concretos de uma teologia encarnada, viva, plural.

Finalmente, como nossa juventude somada à nossa fé e desejo de um mundo melhor nos impulsa a seguir sonhando e imaginando, opto pela espiritualidade, tal como veementemente definida por Daniel Souza, meu amigo e companheiro de caminhada na REJU (Rede Ecumênica de Juventude): Uma espiritualidade libertadora é aquela que vivemos na encruzilhada, no compromisso radical de luta por justiça e na festa.

(i) Na encruzilhada de nossos cotidianos latino-americanos, com as marcas que cruzam nossos corpos e contextos. A realidade da juventude em sua luta por sobreviver em sociedades que lhe negam a vida. (ii) Motivada por um compromisso de luta radical por justiça. Cara inspiração à Teologia da Libertação, seu início nas bases e a vida como ato primeiro. (iii) Em festa, não somente por sermos jovens (já que na festa o tempo e o espaço são transgredidos), mas também porque nela irrompe o inesperado, se cruzam os corpos, se rompe a produção… E porque gostamos de festa!

* Maryuri Mora é metodista, teóloga, doutoranda em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e integrante da REJU-SP.

Texto publicado originalmente em: http://www.gemrip.com.ar/?p=1077.
Tradução: Humberto Ramos.
Fonte: Página da REJU.

Notas:
[1] De cada tres asesinatos cometidos en Brasil, dos son de jóvenes negros entre 15 y 24 años de edad, según lo muestra el Mapa de la Violencia (2013) elaborado por el Centro Brasileiro de Estudios Latino-Americanos (Cebela).
[2] Althaus-Reid, Marcella. Desmitologizando a teologia da libertação. Reflexões sobre poder, pobreza e sexualidade. In: SUSIN, Luiz Carlos (org.). Teologia para outro mundo possível. São Paulo: Paulinas, 2006.
[3] http://www.ihu.unisinos.br/noticias/514362-inicia-o-congresso-continental-de-teologia-com-jon-sobrino.

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