“Religiões afro-brasileiras, caminhos de espiritualidade” (por Marcelo Barros) – 02/6/2014

No Rio de Janeiro um juiz decretou que, a partir de agora, as religiões de matriz africana não devem mais ser consideradas como religiões e sim como meros cultos ou costumes. Sua postura discriminadora e elitista veio revelar como, no Brasil, ainda existem preconceitos religiosos e raciais. Vivemos em um país no qual, como dizia Millor, “perante a lei, todas as pessoas são iguais. Só que algumas são mais iguais do que outras”. O fato é que a sentença do juiz foi tão absurda e injusta que, em todo o país, suscitou reações contrárias e ele foi obrigado a reconhecer o seu erro e se retratar.

Não vale a pena recorrer a argumentos sociológicos ou antropológicos para provar que o Candomblé, a Umbanda, a Jurema e quaisquer outras manifestações espirituais de tradição negra ou indígena têm comunidades organizadas, tradições veneráveis, leis próprias, lugares de culto público e, portanto, nada ficam a dever a qualquer outra corrente religiosa. É triste o fato de que um juiz ouse pronunciar uma sentença sem conhecimento de causa. Pelo que deu a conhecer, não sabia nem o que são as religiões de matriz africana, nem estudou corretamente o conceito sociológico e antropológico de religião. Menos ainda desconfiou que estava adentrando em um terreno delicado, no qual teologia e sensibilidade criam labirintos de criatividade que expressam amor e ligam céu e terra.

Se no Brasil não houvesse tanta discriminação religiosa e as religiões afro-brasileiras não fossem vítimas frequentes de agressão violenta, poder-se-ia até interpretar a sentença do juiz de forma diferente. Poderíamos até imaginar que ele quis elogiar as religiões afro e não diminuí-las. Suas palavras poderiam significar que o Candomblé, a Umbanda e as outras expressões da tradição afrodescendente não são apenas religiões. São religiões sim e ninguém pode negar isso, mas vão além das estruturas e da organização religiosa porque se constituem como verdadeiros caminhos espirituais e místicos que fazem bem a todas as pessoas e expressam uma sabedoria que une tradição, cultura e inserção no mundo atual, como profecia social de um mundo mais justo e igualitário.

Pessoalmente, considero-me uma testemunha disso porque sou um monge beneditino (católico) e padre. E devo confessar: cada vez que vou a qualquer culto ou manifestação do Candomblé, vivo uma experiência intercultural e interreligiosa, mas vai além disso. O Candomblé me conduz a uma vivência profundamente mística e espiritual. Sempre que tive qualquer contato com uma manifestação religiosa afro-descendente, senti no coração o apelo para ser mais humano e isso para mim significou que o Espírito Divino baixou e eu pude compreender e, ao menos um pouco, vivenciar a experiência inefável que o apóstolo Paulo viveu quando escreveu: “Já não sou eu que vivo. É o Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20).

Essa experiência de ser possuído pelas mais diversas expressões da divindade (Orixás, Inquices, ou Caboclos) eleva a religião ao estatuto de um caminho de espiritualidade e mística que nem sempre algumas das religiões consideradas pelo tal juiz como as clássicas têm sabido testemunhar.
Mesmo se o juiz voltou atrás em sua sentença, é dever de toda pessoa justa e mesmo de toda comunidade que se considere de fé, seja qual for a sua tradição religiosa, ser solidária umas com as outras e testemunhar de que Deus não assinou contrato de exclusividade com ninguém e o Espírito Divino é como a ventania. “Sopra onde quer. Tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim é a pessoa que nasce do Espírito” (Jo 3, 8).

Fonte: Página do CEBI.

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