Um breve balanço do primeiro ano das Aproximações despretensiosas

Eu não tenho a pretensão de fechar o assunto, definindo o que aconteceu. Estou só colocando o meu ponto de vista. Espero que os outros participantes façam o mesmo.

As aproximações começaram como iniciativas bem despretensiosas com o objetivo de reunir cristãs e cristãos libertári@s & simpatizantes. Uma boa oportunidade para estreitar os laços de amizade e criar outros novos. Ou pelo menos encontrar meia dúzia de gatos pingados que talvez tivessem as idéias mais absurdas sobre o Evangelho.

O nosso amigo Amauri Alves disse:

“Esta é uma reunião que, como diz o nome, é despretensiosa, porém longe de ser uma reunião sem propósitos. O propósito do nosso encontro e o compartilhamento de experiências e da confraternização e convivência entre irmãos debaixo de um mesmo propósito, a interpretação libertadora da vida através do Evangelho de Cristo, longe do engessamento característico da instituição eclesiástica. Segundo o que me foi passado sobre a última reunião, contamos com algumas pessoas e o assunto básico tratado foi uma leitura popular da Bíblia. Entre os assuntos, se destacaram alguns, como: a) a Bíblia é, além da palavra de Deus, um reflexo da Vida, do cotidiano, à medida que destaca não apenas os pontos positivos do homem (e suas atitudes e conseqüências), como também suas fraquezas; b) a Bíblia é a palavra de Deus, mas sua palavra não é expressa apenas por ela (também se manifesta na natureza, etc); c) o método Ver, Julgar e Agir, como forma de entender a ação reveladora de Deus na observação da Bíblia e do nosso cotidiano.”

O Amauri também disse:

“Para quem não sabe o que é, a Aproximação despretensiosa é uma reunião onde falamos sobre o Evangelho de Cristo, tentando aplicar esse Evangelho à realidade do dia-a-dia. O grande diferencial dessa reunião é que ela está livre de regras, livre de estatutos e, o mais importante – e melhor -, livre de líderes e de igrejas. Lá, ninguém é mais importante, ninguém senta no púlpito e ninguém é puxa-saco de ninguém. Nos reunimos para tentar entender um pouco mais sobre o Mestre longe da hipocrisia e dos formalismos que continuam, mais do que nunca, atacando nossas Igrejas, agora de uma maneira mais perigosa e sutil: transvestidos de crentes “moderninhos”, que carregam suas capas de roqueiros, surfistas, skatistas, rappers, possuem cabelos compridos, tatuagens, piercings e moicanos, mas continuam com seu legalismo e hipocrisia de sempre.”

E com isso, a partir de setembro do ano passado, já foram realizadas onze aproximações: 27/9/8, 25/10/8, 6/12/8, 17/1/9, 14/2/9, 28/3/9, 18/4/9, 23/5/9, 20/6/9, 8/8/9, e 12/9/9. Diversas pessoas participaram e deixaram de participar ou continuam participando. Outras solidarizaram-se através de mensagens e colaboraram conosco, ou até vieram de longe. Muitas colaborações, reflexões, sugestões, leituras, discussões etc.

E as ações? Sim, podemos ser acusados de inatividade, mas nada nos tira nossa dimensão pública, aberta e que permite que as aproximações sejam emocionantes – para não dizer conturbadas. Porque a presença dos outros, diferentes de nós, mostra que nós estamos no caminho certo, estamos nos permitindo ser tocados – isso é bom. Já na primeira aproximação (no MASP) nos deparamos com uns “nóinhas” pedindo “seda” e depois diversos pedintes nos abordaram. Em outras foi a curiosidade de algum transeunte (e frequentador do CCSP). Ou seja, estamos vivos e dando a cara a tapa!

Não somos melhores do que os outros. Mas será que somos melhores do que os outros cristãos? Na minha
opinião é um erro pensarmos que somos melhores do que os outros cristãos só porque temos mais conhecimento, ou supostamente buscamos libertação e os outros cristãos contentam-se com o ópio da religião. Isso já é um erro. Afinal de contas, Deus ocultou coisas do Evangelho aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos (cf. Mt 11.25). Portanto, nós que detemos algum conhecimento libertário temos que aprender sobre o Evangelho com os pequeninos, pobres, incultos, incrédulos e até com aqueles crentes que muitas vezes desprezamos.

Sempre é bom lembrar que os meios determinam os fins. E a Igreja está do jeito que está principalmente por causa dos meios que usa para pregar o Evangelho e não por causa do Evangelho.

Quais seriam as idéias supostamente comuns aos cristãos libertários? Será que podemos mudar o título de Aproximações despretensiosas para Aproximações convergentes? Poderíamos dizer que Cristo, o Evangelho e os valores do reino de Deus nos unem. Sendo que avaliamos criticamente o ensino e a prática cristã, rejeitando o sectarismo, o legalismo e o dogmatismo religiosos. Estaríamos mais em busca de uma ética cristã baseada em princípios bíblicos gerais e nos valores do reino de Deus, e não em minuciosas regras.

Poderíamos, como cristãs e cristãos libertári@s convergentes, adotar três princípios – como algumas comunidades: Jesus no centro da nossa fé, a comunidade no centro do nosso viver, e a reconciliação no centro do nosso trabalho.

Cremos também em mudanças profundas na sociedade porque a maior utopia nos foi dada que é o reino de Deus – denunciamos o pecado social, queremos resgatar a luta por uma sociedade mais justa. Enfatizamos o sacerdócio universal de todos os crentes. Cremos que Deus deu autonomia aos seres humanos para escreverem sua própria história. Por isso temos liberdade para flertar com o socialismo e anarquismo.

Por outro lado, a heterogeneidade também nos ajuda. Não podemos esquecer que ateus, agnósticos, budistas e outros já participaram das aproximações. Neste sentido não seríamos tão convergentes assim. As aproximações não podem ficar restritas a cristãs e cristãos, devem estar abertas a todos que buscam uma espiritualidade libertária. Que tal Aproximações por uma espiritualidade libertária?

Nada está definido nem precisa estar. Talvez possamos usar o convergente, não para adotar os três princípios – já que nem todos são cristãos, mas para lembrar que nossa convergência vem da nossa heterogeneidade. Será que é muita heresia afirmar que podemos ter os mesmos princípios com nomes diferentes? – seremos os malditos que não conhecem a lei (cf. Jo 7.49)?

Alguns participantes escreveram artigos para as aproximações, antes das mesmas, ou simplesmente compartilharam seus fichamentos de leituras e resenhas. Temos material suficiente para publicar nossa revista. Vou citar alguns artigos, os mais significativos na minha opinião:

Amauri Alves – “Revolta Aprovada Por Deus”
Amauri Alves – “Sermão da Montanha – O Fundamento do Cristianismo Verdadeiro: a porta de entrada é por aqui”
Daniela Bomfim – “Herege?! Graças a Deus!!!!!”
Diogo Santana – “O que é anarquismo cristão? – uma leitura de Tiago 4.4”
Emiliano Monteiro – “Uma conversa sobre a evolução darwiniana”

No começo foi sugerida a criação de uma bibliografia básica. Vou citar alguns livros que foram indicados para leitura nas aproximações:

ELLUL, J. Anarchy and Christianity [Anarquia e cristianismo]. Grand Rapids: Eerdmans, 1991. [Traduzido e adaptado por Filipe Ferrari].
_____. Políticas de Deus e políticas dos homens. São Paulo: Fonte editorial, 2006.
_____. O homem e o dinheiro – aprenda a lidar com a origem de todos os males. Brasília: Palavra, 2008.
GOUVÊA, R. Q. A piedade pervertida: um manifesto anti-fundamentalista em nome de uma teologia de transformação. São Paulo: Grapho, 2006.
KIERKEGAARD, S. Temor e tremor. Coleção Os pensadores. São Paulo: Abril, 1974.
LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
MESTERS, C. Os Dez Mandamentos – ferramenta da comunidade. São Paulo: Paulus, 1986.
_____. Bíblia, livro feito em mutirão. São Paulo: Paulus, 1993.
MESTERS, C. & OROFINO, F. Sobre a leitura popular da Bíblia no Brasil (artigo). São Leopoldo: Centro de Estudos Bíblicos, 2005. Disponível em: http://www.cebi.org.br/noticia.php?secaoId=12&noticiaId=132. Acesso em: 13 de fevereiro de 2009.
REXROTH, K. Communalism: from its origins to the twentieth century [Comunalismo: das origens ao século XX]. Seabury Press, 1974. Disponível na página: <http://www.bopsecrets.org&gt;. [Traduzido e adaptado por Railton de Sousa Guedes].
SANTANA, D. O Deus de carne: uma introdução a cristologia. Pará de Minas: Virtualbooks, 2009.
TOLSTÓI, L. O reino de Deus está em vós. Rosa dos Tempos, 1994.
VIOLA, F. Pagan christianity: the origins of our modern church practices [Cristianismo pagão: origens das práticas de nossa igreja moderna]. Present Testimony Ministry, 2005. [Traduzido e adaptado por Railton de Sousa Guedes].

É isso. Que possamos manter essa chama acesa!!

Um forte abraço,

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Uma opinião sobre “Um breve balanço do primeiro ano das Aproximações despretensiosas

  1. tomará que essas aproximações gerem ações, pois o que o Jesus que vcs tanto falam tinha ações libertária, não eram um conjunto de boys sentados discuntindo enquanto o mundo passa.

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