Intolerância no Dia do Combate à Intolerância Religiosa (por Angélica Tostes, 21/1/2016)

A intolerância não tem dia. Mesmo hoje (21) sendo o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, fui vítima dessa forma de discriminação.

Eu sou teóloga evangélica. Me formei no ano passado em Teologia na Universidade Presbiteriana Mackenzie. E como pós formada na Universidade estava procurando um emprego e logo me avisaram de uma vaga de professor em um colégio católico franciscano para dar aulas na matéria de Ensino Religioso. Fui na entrevista no ano passado, tudo ocorreu de maneira maravilhosa; fiquei sabendo que o Ensino Religioso no colégio era uma “Ciências da Religião” simplificada e me animei bastante. E nesse ano fui chamada para fazer uma avaliação – mais uma parte do processo de possível contratação. A diretora me elogiou e disse que fui muitíssimo bem, e que me daria a oportunidade de iniciar como professora da disciplina.

Pois bem, iniciei essa semana (18 de janeiro de 2016) e tudo estava bem. Ontem (20), fiquei o dia inteiro em um dos colégios para palestra e uma reunião com a Pastoral e Ensino Religioso do colégio. Quando disse que fiz Teologia no Mackenzie (teologia protestante e reformada) as irmãs começaram a me indagar sobre várias questões a respeito da fé, e com um estranhamento perguntaram se eu era católica, e eu disse “não, sou cristã de linha evangélica”. E as perguntas ficaram mais específicas sobre se eu tinha algum problema com imagens, as festividades, ritos, etc. O que obviamente não tenho problemas, pois considero toda a experiência religiosa válida e todas têm o mesmo objetivo: alcançar o Inalcançável, que cada um coloca um nome.

E eis que me surpreendo: hoje (21), coincidentemente no Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, fui demitida por não pertencer à fé católica. Fiquei apenas 4 dias no meu “novo trabalho”, sem ao menos ser avaliada pela qualidade de minhas aulas, sem ao menos considerarem meus conhecimentos do assunto. A ética e o respeito passaram longe daqueles que se dizem seguir os ensinamentos de São Francisco.

É muito frustrante quando sua religião importa mais que sua competência para exercer a atividade. E como teóloga é impossível aguentar calada toda essa situação de intolerância,  situação da qual muitos enfrentam diariamente. É incompreensível alguém julgar a aptidão de uma pessoa por questões de etnia, religião, nação, etc.  A intolerância religiosa é definida como um crime de ódio que fere a liberdade e a dignidade.

O que vivenciei no dia de hoje é muito inexplicável. As palavras não conseguem demonstrar a tristeza que me abate, e não apenas por ter acontecido comigo e ter frustrado meus planos, mas por saber que milhares de pessoas passam por isso diariamente. Sofrem caladas, amedrontadas e coagidas por pessoas intolerantes e querem impor seus dogmas de fé “goela abaixo”. O cristianismo, seja ele católico ou evangélico, perdeu sua essência, a de Jesus. A essência de acolhimento, misericórdia e que não faz acepção de pessoas. Não julga com olhos, mas conhece pelo coração.

A tradição religiosa matou o Sagrado. A ideologia religiosa cegou os povos. E assim vamos vivendo essa vida de incoerência entre palavras e atos.  Manchamos os nomes dos nossos deuses, santos, orixás e outras divindades por não agirmos como eles nos ensinaram. Manchamos o nome do que se diz “humanidade” por simplesmente não agirmos de maneira “humana”.

O Papa Francisco confiou as intenções de oração para janeiro, e as mesmas eram sobre a questão de diálogo inter-religioso e ecumenismo. E ainda nos deixa uma frase que não condiz com a atitude do colégio em questão:

“Que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e justiça.” (Papa Francisco)

Termino esse post com uma música do Legião Urbana, Anjos:

“Hoje não dá
Hoje não dá
Não sei mais o que dizer
E nem o que pensar

Hoje não dá
Hoje não dá
A maldade humana agora não tem nome
Hoje não dá

Pegue duas medidas de estupidez
Junte trinta e quatro partes de mentira
Adicione a seguir o ódio e a inveja
À dez colheres cheias de burrice

Stop! Como é que é?
Calma! Como se faz uma receita pra intolerância e a injustiça?
Vamos lá!

Pegue duas medidas de estupidez
Junte trinta e quatro partes de mentira
Coloque tudo numa forma, untada previamente
Com promessas não cumpridas
Adicione a seguir o ódio e a inveja
À dez colheres cheias de burrice
Mexa tudo e misture bem
E não se esqueça, antes de levar ao forno
Temperar com essência de espírito de porco
Duas xícaras de indiferença
e um tablete e meio de preguiça

[…]

Gostaria de não saber destes crimes atrozes
É todo dia agora e o que vamos fazer?
Quero voar pra bem longe, mas hoje não dá
Não sei o que pensar e nem o que dizer
Só nos sobrou, do amor, a falta que ficou”

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* Angélica Tostes é bacharel em Teologia e membro do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária. E-mail: angelicatostes@gmail.com.
Fonte: https://angeliquisses.wordpress.com/2016/01/22/intolerancia-no-dia-do-combate-a-intolerancia-religiosa/.

Diálogo sobre a Intolerância Religiosa no Brasil (30/1/2016), em São Paulo

No próximo sábado (30/1/2016) às 15h, dentro das atividades da Campanha Contra a Intolerância Religiosa (Janeiro de 2016), nós do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária convidamos todos e todas para o Diálogo sobre a Intolerância Religiosa no Brasil.

O diálogo contará com a participação de Liliane Braga, Cintia Quina da Silva e Patrício Araújo (candomblecistas), Adriana Lopes (umbandista) e Mariana Terra (hare krishna), e será mediado por Lúcia Goulart (evangélica).

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Será realizado no salão paroquial da Igreja Imaculada Conceição, na Av. Brigadeiro Luis Antônio, 2071, São Paulo, SP, próximo ao metrô Brigadeiro.

Compareçam e não esqueçam dos quitutes para partilharmos!

Digam #nãoàintolerânciareligiosa!

Informações: espiritualidadelibertaria@gmail.com.

Campanha Contra a Intolerância Religiosa (Janeiro de 2016)

Apoie a Campanha Contra a Intolerância Religiosa (Janeiro de 2016) do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária!

Diga não à intolerância religiosa! (Use a hashtag #nãoàintolerânciareligiosa)

O mês de janeiro é um momento propício para esta campanha. O dia 7 de janeiro é o Dia da Liberdade de Cultos. E o dia 21 de janeiro é o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.

Apoiamos todas as manifestações pela paz e pela liberdade religiosa que serão realizadas por todo o Brasil por conta do dia 21 de janeiro. Promova e/ou apoie algum ato contra a intolerância religiosa na sua cidade.

Envie também sua foto com uma mensagem de respeito, pela convivência pacífica entre religiosos e não-religiosos, e contra qualquer tipo de intolerância religiosa.

Aqui em São Paulo, no dia 21 de janeiro às 19h, estaremos na Avenida Paulista, no vão livre do MASP, no Ato Contra a Intolerância Religiosa. E no dia 30 de janeiro às 15h, promoveremos o Diálogo sobre a Intolerância Religiosa no Brasil.

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Alguns eventos que ocorrerão no Brasil:
17/01 às 15h00 – Roda de Conversa: Combate à Intolerância Religiosa (Juazeiro do Norte, CE).
19/01 às 15h00 – Caminhada Contra a Intolerância Religiosa, parte 1 (Manaus, AM).
19/01 às 19h00 – Encontro Contra a Intolerância Religiosa (Indaiatuba, SP).
19/01 às 19h30 – Caminhada Contra a Intolerância Religiosa, parte 2 (Manaus, AM).
19 a 23/01 – Semana Municipal de Enfrentamento à Intolerância Religiosa (Camaçari, BA).
21 a 24/01 – Campanha Eu Visto Branco pela Liberdade de Fé da REJU (Brasil).
21/01 às 9h00 – 3ª Caminhada Paraibana de Combate à Intolerância Religiosa (João Pessoa, PB).
21/01 às 9h00 – Audiência Pública sobre combate à intolerância religiosa (São Francisco do Conde, BA).
21/01 às 15h00 – VII Caminhada pela Liberdade Religiosa (Juazeiro do Norte, CE).
21/01 às 17h00 – VIII Marcha Pela Vida e Liberdade Religiosa (Porto Alegre, RS).
21/01 – Ato inter-religioso pela Paz e pelo Diálogo (Santos, SP).
21/01 às 19h00 – Ato de Combate à Intolerância Religiosa (São Paulo, SP).
21/01 às 19h00 – Roda de conversa sobre a Intolerância Religiosa (São Carlos, SP).
21/01 às 19h30 – Ato Contra a Intolerância Religiosa (Rio de Janeiro, RJ).
22/01 às 15h00 – Caminhada para Oxalá pela Vida e Liberdade Religiosa (Aracaju, SE).
22 e 23/01 – Encontro do Povo do Asé Contra a Intolerância Religiosa (São José dos Campos, SP).
25/01 às 10h00 – 5ª Procissão do Pai Oxalá (São Paulo, SP).
30/01 às 15h00 – Diálogo sobre a Intolerância Religiosa no Brasil (São Paulo, SP).

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No último sábado (7), ocorreu o Diálogo sobre negritude, religião e racismo

No último sábado (7), ocorreu o Diálogo sobre negritude, religião e racismo, na Igreja Imaculada Conceição, na cidade de São Paulo.

Nós do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária agradecemos a todas e todos que compareceram e compartilharam suas experiências, à Sarah Ghubara, à Nathália Machado, à Zainne Lima, e à comunidade da Igreja Imaculada Conceição que cedeu o espaço e apoiou o encontro.

Se você quiser apoiar nosso coletivo ou promover algum diálogo na sua comunidade, entre em contato conosco: espiritualidadelibertaria@gmail.com.

Em breve disponibilizaremos o áudio deste diálogo e divulgaremos informações sobre nosso próximo encontro.

  

  
  
  
  
  
  
  

Manifesto público em favor da luta e conquista das comunidades e povos indígenas no Brasil

Manifesto público em favor da luta e conquista das comunidades e povos indígenas no Brasil

São constantes e recorrentes as denúncias de manifestações preconceituosas e discriminatórias às comunidades e povos indígenas no Brasil. Tais manifestações fomentam uma postura de segregação e desrespeito à diversidade étnica e cultural dos povos originários deste território, no qual se forjou o Brasil. A manifestação preconceituosa e discriminatória contraria a proposição conquistada pelas comunidades e povos indígenas na elaboração da atual Constituição Federal e no direito internacional aos quais o Brasil é signatário e cooperou na elaboração e solidificação dos direitos humanos e de respeito a diversidade étnica. O repúdio e as denúncias das comunidades e povos indígenas tornam-se mais relevantes quando estas manifestações preconceituosas e discriminatórias são proferidas por servidores públicos, como deputados federais e estaduais, que são eleitos e assumem mandatos que preconizam a defesa e amplitude da democracia e representatividade da diversidade social, étnica, cultural, econômica, política, sexual e outras, que constituem a sociodiversidade da República Federativa do Brasil.

A incitação ao desrespeito e a invisibilidade social às comunidade e povos indígenas no Brasil, visam desconstituir a plena cidadania e protagonismo indígena, desqualificando ou desprezando a identidade e situação sociocultural, que garante o tratamento específico e diferenciado por políticas públicas e o tratamento do Estado Democrático e de Direito, que constituímos como sociedade brasileira. Apesar das constantes mobilizações e manifestações que as próprias comunidades indígenas organizaram e divulgaram, o discurso de incitação preconceituosa e discriminatória persiste. De forma especial as proferidas por parlamentares afetam diretamente as comunidades indígenas da região sul do Brasil, ao desqualificarem pejorativamente e com conceitos arcaicos e descontextualizados – que aflige a dignidade individual e coletiva dos povos, o trato dos direitos humanos e do reconhecimento sociocultural dinâmico e dialogal entre sociedades étnicas ou grupos sociais.

Como entidades da sociedade civil brasileira manifestamos nossa solidariedade e apoio às lutas, mobilizações e manifestações das comunidades e povos indígenas pelo respeito e reconhecimento de direitos e plena participação social. Repudiamos todas as manifestações preconceituosas, difamatórias, caluniosas e discriminatórias, sobretudo as expressas por agentes públicos, que deveriam prezar pelo respeito e promoção da sociodiversidade étnica no Brasil. Manifestamos nossa contrariedade aos projetos legislativos e sentenças jurídicas que ultrajam e retrocedem no zelo pela sociodiversidade dos povos indígenas brasileiros, diversidade essa que assegura a demarcação e proteção das terras indígenas, conforme os preceitos e entendimentos culturais de cada povo, também firmados pelo Brasil em acordos internacionais.

Conclamamos a sociedade brasileira à solidariedade e vinculação às mobilizações e manifestações das comunidades e povos indígenas no Brasil, como as ocorridas, de forma expressiva e com ampla participação (no norte do Rio Grande do Sul, foram seis locais de mobilização e participação de superior a 1000 indígenas e diversos manifestos divulgados nas mídias), na data de 27 de outubro de 2015, em que se manifestou a contrariedade e repúdio da aprovação da PEC 215/2000, que inviabiliza o direito humano básico de acesso e usufruto exclusivo das terras e territórios de ocupação tradicional indígena, entre outras arbitrariedades e ultrajes. Da mesma forma, conclamamos o repúdio às práticas do atual Poder Legislativo em impedir a participação civil e cidadã, sobretudo das comunidades indígenas, em votações, debates e definições legislativas sobre o direito indígena (fato ocorrido, outra vez, na votação final do PEC 215/2000, pela Comissão Especial da Câmara de Deputados – Brasília/DF, na noite de 27 de outubro de 2015). Enfim, conclamamos a todos e todas ao engajamento e ao respeito dos direitos humanos para a garantia da paz às comunidades e povos indígenas.

28 de outubro de 2015

Assinam:
Conselho de Missão entre Povos Indígenas – COMIN
Conselho Indigenista Missionário – CIMI
Conselho Nacional de Igrejas Cristãs – CONIC
Fundação Luterana de Diaconia – FLD

  

Diálogo sobre negritude, religião e racismo (07/11/2015), em São Paulo

No próximo sábado (07 de novembro) às 15h00, ocorrerá o “Diálogo sobre negritude, religião e racismo” com Sarah Ghuraba (muçulmana), Nathália Machado e Zianne Lima (evangélicas), e mediado por Gabriela Veloso (evangélica).

O encontro ocorrerá no salão paroquial da Igreja Imaculada Conceição, Av. Brigadeiro Luis Antônio, 2071, São Paulo, SP, próximo ao metrô Brigadeiro.

Compareçam e não esqueçam dos quitutes para partilharmos.

Informações: espiritualidadelibertaria@gmail.com.

  

No último sábado (19) ocorreu o Diálogo sobre a diversidade sexual nas igrejas

No último sábado (19), ocorreu o Diálogo sobre a diversidade sexual, no Centro Cultural São Paulo (CCSP), na cidade de São Paulo.

Nós do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária agradecemos a todas e todos que compareceram e compartilharam suas experiências, aos amigos Vento e Douglas do Coletivo Cristão Libertário do Rio de Janeiro, ao Lucas Paiva e ao Lula Ramires do Grupo de Ação Pastoral da Diversidade, ao Dário Neto da Igreja da Comunidade Metropolitana, e ao José Barbosa Júnior do movimento Jesus Cura a Homofobia. 

Se você quiser apoiar o nosso coletivo ou promover algum diálogo na sua comunidade, entre em contato conosco: espiritualidadelibertaria@gmail.com.

  
  
  
  
  

Fotos de Sandro Eduardo Vichi e de Lula Ramires.